O sentido do sofrimento para o cristão
03/01/26
Por que o ser humano, de fé ou sem fé,
sofre? Qual a diferença notada no sofrimento de ambos?
Cada um de nós carrega a sua cruz de cada dia, mas,
no campo da saúde, médicos e pacientes parecem ver essa cruz de forma mais
direta, especialmente nos casos das moléstias incuráveis.
O paciente, no caso, sabe que vai morrer e o médico
sente-se impotente por saber que nada pode fazer para debelar a doença que
acomete seu cliente. Isso tudo desperta as perguntas: Por que o ser humano, de
fé ou sem fé, sofre? Qual a diferença notada no sofrimento de ambos? Alguém
terá tratado desse tema a fim de nos oferecer alguma luz? – É a estes
questionamentos que o artigo se volta.
Em consideração à primeira questão, é preciso subir
a escala desses seres para entender isso: o mineral não sofre. Pode ser talhado e martelado sem que
sinta dor. É totalmente insensível; o vegetal, quando agredido, reage. A planta da qual se corta um
ramo, tende a se restaurar; por conseguinte, no plano em que começa a vida,
começa a resposta àquilo que pretende destruir o ser; o animal irracional (cão, gato,
onça etc.) sofre, gemendo, chorando, urlando..., pois tem a vida sensitiva, por isto sente a dor;
o ser humano, que vive no
plano intelectivo, sofre
mais ainda. Não somente sente dor física ou moral, mas também reflete sobre a
sua dor, o que o faz sofrer duplamente.
E – note-se bem – quanto mais alguém é nobre e
digno, tanto mais sofre. Assim, quem muito ama, muito sofre. Só não sofre quem
tem a saúde mental comprometida. A razão do sofrimento dos mentalmente sadios
está em que a pessoa percebe a diferença existente entre o ideal (o que deveria
ser) e a realidade. Essa diferença suscita dor em quem tem sensibilidade para
os verdadeiros valores.
Mais: o sofrimento funciona, segundo Viktor Frankl,
professor de Neurologia e Psiquiatria na Universidade de Viena e pai da
Logoterapia, como um lembrete ao homem, seja no plano físico ou moral: no físico, a dor faz o papel de
vigilante a nos alertar que algo no corpo – ainda que oculto à primeira vista –
não vai bem. É ela quem nos leva a buscar o auxílio médico; no plano moral, são os grandes desafios que
nos fazem crescer e amadurecer. Sem os embates da vida, o ser humano pode
chegar à grande estatura física, mas ser muito pequeno interiormente. Aliás, os
antigos gregos já diziam: páthos-máthos:
o sofrimento é escola. Daí, o ser humano de fé ver sentido em sua dor e o sem
fé cair no desânimo ou apatia diante dos desafios da vida.
Sim, ao cristão, de um modo especial, recorda São
Paulo (Colossensses 1,24): “Completo em minha carne o que falta à paixão de
Cristo”. Ora, dar uma moldura nova – pois o sofrimento de Cristo já foi
completo – à paixão do Senhor Jesus nos dias de hoje é algo valioso, mas
entendido só na fé. Com sua experiência em campos de concentração nazistas,
Frankl nota que a prisão (e também, por que não acrescentar, a doença) leva o
ser humano a enxergar melhor sua pequenez e a não se desesperar, mas jogar-se
confiante nas mãos de Deus. Quem compreende isso, entende os (as) santos(as)
que, apesar de seus muitos sofrimentos, souberam ser fiéis até o fim sem
esmorecer.
Diante desse quadro, também o médico aprende – caso
tenha humildade e saiba ser aberto ao que está além de seus conhecimentos,
importantes, mas limitados como o de todos os demais homens e mulheres em
qualquer profissão que tenham escolhido – ao se ver ante um problema sem
solução. Lê-se, por exemplo, o que segue: “Viktor von Weizsäcker afirmou certa
vez que o doente que sofre corajosamente, dá lições ao médico que o trata. Um
médico que possua certa finura de sensibilidade, terá diante de um doente
incurável ou um moribundo, a sensação de não se poder aproximar dele sem certa
vergonha. Enquanto o paciente surge como alguém que enfrenta com firmeza a sua
sorte e leva a termo uma autêntica realização no plano espiritual, no plano
físico ou na esfera das realizações médicas, deve reconhecer a sua
insuficiência” (Pergunte e
Responderemos n. 281, julho-agosto 1985, p. 336).
Eis como Medicina e Fé podem olhar para o
sofrimento humano, misterioso, mas capaz de levar a profundas reflexões...

Edição Portuguese

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