Sabia que a lentidão é uma qualidade sofisticada do
nosso cérebro?

15/01/26
O pensamento rápido está relacionado à
sobrevivência, já o pensamento lento está relacionado a tudo que requer
consciência. A herança consumista levou-nos a idolatrar a velocidade, talvez
porque é melhor para o ser humano, reduzido a consumidor, manter a sua
consciência o máximo possível desligada
"Mas
como você é lento(a)!" Isso deveria ser um elogio...
Diz-se "matar o tempo". E refere-se ao
tempo livre, àquelas horas - por vezes apenas minutos - que passamos sem o
incómodo do trabalho, da família, das urgências sociais. Mas porque é que
usamos um verbo tão negativo como "matar" para descrever uma experiência
tão positiva?
É a partir desta observação que a nova edição da
revista BenEsseresi explora o valor da
lentidão na nossa era rápida, instantânea e instintiva. Num artigo de Caterina
Allegro, com a colaboração da psicóloga clínica Maria Sperotto, começamos por
tomar nota da sombra negativa que associamos espontaneamente a tudo o que é lento.
Lento: fleumático, relaxado, apático, preguiçoso,
indolente, inativo. Rápido: veloz, pronto, ágil, astuto, dinâmico, prático,
ativo. A diferença salta imediatamente aos olhos: os sinónimos do primeiro
termo na sua maioria têm uma conotação negativa, os do segundo são muito mais
generosos, em termos qualitativos e quantitativos.
É também curioso notar que quando temos uma série de atividades - uma após outra, a um ritmo rápido - dizemos que otimizamos o nosso tempo. Com a ideia de que é ótimo correr, encher-se de afazeres e tarefas no mais curto espaço de tempo possível.
A Dra. Sperotto associa esta nossa atitude bem
estabelecida à impressão de que o tempo é um recurso limitado e deve, portanto,
ser explorado. A primeira parte do raciocínio é correta: somos criaturas
limitadas - isto é, mortais - e o tempo à nossa disposição não é ilimitado.
Podemos sentir a pressão negativa deste limite, ou olhar para ele através dos
olhos de um agricultor a quem é confiada uma pequena horta. E se o tempo, em
vez de ser explorado, deve ser cultivado?
Para
apreciar o momento é preciso parar
O verbo desfrutar é
perfeito para pintar um retrato dos tempos contemporâneos. Em vez de desfrutarmos, explorarmos.
Aplaudimo-nos muito quando no nosso comportamento no trabalho diário somos bons
em explorar o tempo e a oportunidade.
Aproveitamos o tempo para lhe arrancarmos cada
segundo, sempre afoitos. Quantas vezes dizemos: eu fui muito bem, em meia hora
fiz tudo! Ou, pelo contrário: perdi uma hora sem terminar nada.
Por que é que o tempo vivido, e dado a nós, deveria
ser considerado perdido? Talvez porque os critérios utilitários nos pautam? É
por isso que a Dra. Sperotto se refere à distinção feita pelos antigos gregos
entre kronos (tempo como uma mera sucessão de minutos, horas) e kairos (o
momento oportuno, ou seja, o tempo como uma oportunidade de significado). Com
respeito a isto:
[…] o valor cronológico ocupa o segundo lugar em
relação ao significado desse minuto para a nossa história individual.
A
lentidão é uma conquista do nosso cérebro
Não é novidade encontrar conteúdos que valorizam a
lentidão, no nosso mundo acelerado. A experiência do Slow Food, por exemplo,
nasceu em 1986. Que o frenesi e a velocidade são responsáveis por uma certa
corrosão da nossa humanidade, isso há muito que é conhecido.
Como diz Lamberto Maffei, antigo diretor do
Instituto CNR de Neurociência, no seu In Praise of Slowness, e citado por BenEssere:
[…] o nosso cérebro é capaz de pensar rapidamente,
conduzido pelo hemisfério direito, e de pensar lentamente, o que tem origem no
esquerdo. A primeira forma é mais antiga: é aquela relacionada à sobrevivência,
às reações instintivas e às imagens. A segundo, por outro lado, surgiu muito
mais tarde, há apenas 100.000 anos, com a língua, e foi depois consolidada com
a escrita.
Portanto, a velocidade é uma habilidade
ligada à sobrevivência. Assim, é valiosa em situações de emergência, mas
nem sempre. O impulso dado pela velocidade é grande quando nos faz correr para
apanhar o nosso filho que está prestes a cair, mas não é tão grande quando nos
ilude que podemos fazer tudo com um só clique.
Em suma, o pensamento rápido, que pode salvar a
nossa vida em face do perigo, pode tornar-se uma ameaça à nossa própria
sobrevivência quando nos leva a tomar decisões precipitadas sobre assuntos mais
complexos. Por exemplo, comprar o último modelo de smartphone e ficar sem
dinheiro para comprar alimentos.
A lentidão, em suma, é uma qualidade mais
sofisticada, que o cérebro conquistou ao longo do tempo e
produz contemplação e linguagem e todas as faculdades artísticas. A
característica comum destas ações de pensamento é que elas pressupõem uma
tomada de consciência. A herança consumista de que somos vítimas levou-nos a
idolatrar a velocidade, talvez precisamente porque é melhor para o ser humano,
reduzido a consumidor, manter a sua consciência desligada o máximo possível.
Não
tenha medo do vazio
Quanta pressa, mas para onde vai? - diz uma famosa canção
de Bennato. De fato, parar para compreender porque estamos com tanta pressa é
uma coisa boa. E é bem verdade que o frenesi é muitas vezes uma reação ao medo
de estarmos sozinhos e ainda, face a face com o nosso vazio.
Mas o horror
vacui (horror do vazio) pode ser revertido ao se mergulhar nele.
A desaceleração nem sempre é possível, mas podemos
decidir dar espaço às nossas emoções, mesmo negativas, em vez de as enterrar
debaixo de pilhas de coisas para fazer.
Se aprendermos a ouvir-nos a nós próprios, mesmo em
momentos de vazio, será mais fácil darmo-nos objetivos coerentes, contra os
quais correr ou ficar parado faz sentido. Desta forma, mesmo aquele vazio de
que tanto receamos, deixará de ser um poço sem fundo, mas sim um momento de
passagem funcional para mudar.
O cristão, então, sabe que esse vazio é preenchido
por uma presença. É um poço aparentemente sem fundo, mas do qual emerge o amor
do Pai, que sempre sussurra e espera, pacientemente, toda a lentidão de que
somos capazes. Espera por nós quando paramos.
Talvez a oração seja a melhor maneira de matar o tempo, ou seja, de matar os nossos apertados
horários e habitar o vazio, acolhendo o sangue vital que só flui quando nos
colocamos em relação com Aquele que nos criou.

Edição Portuguese


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