A relação entre os 7 vícios capitais, os 7 pedidos do Pai-Nosso e os 7 dons do Espírito Santo
17/12/25
Uma reflexão medieval
profundamente inspirada sobre 3 dos 5 septenários do Tesouro da Igreja!
Hugo de São Vítor, famoso mestre
medieval, deixou-nos esplêndidos comentários e sermões, além da sua célebre
obra “Didascalion”. Um dos seus
vários opúsculos trata dos Cinco Septenários que haveria no
tesouro da Igreja:
1. os sete pedidos do
Pai-Nosso;
2. os sete vícios
capitais;
3. os sete dons do
Espírito Santo;
4. as sete virtudes;
5. as sete
Bem-Aventuranças.
Poeticamente – porque esse excelente autor medieval
sempre fala com poesia –, ele nos explica que os sete vícios capitais são
comparáveis aos sete rios da Babilônia, que espalham todo o mal, gota a gota,
por toda a terra, já que deles defluem todos os pecados. Por isso, lembra ele,
a Escritura nos diz:
“Junto
aos rios da Babilônia nós nos assentamos e choramos, lembrando-nos de ti, ó
Sião” (Sl CXXXVI, 1).
Hugo de São Vítor coloca os vícios capitais em
certa ordem lógica, a fim de relacioná-los com os sete pedidos do Pai-Nosso.
Assim ele ordena os vícios capitais: soberba, inveja, ira, preguiça ou
tristeza, avareza, gula e luxúria.
1 – Soberba versus “Santificado seja o vosso
nome” e o dom do Temor de Deus
O primeiro vício capital, causa primeira de todos
os nossos males espirituais, é a soberba. Por esse vício atribuímos a nós
mesmos, ao nosso próprio ser, a causa do bem existente em nós. Pela soberba
deixamos de reconhecer a Deus como Fonte de todo o bem. Ao fazer isso, o homem
deixa de amar o Bem em si mesmo para amar o bem enquanto existe nele próprio,
porque existe nele. Dessa forma, o homem rompe a sua união com a Fonte do bem.
Condenando a maldade do orgulho, exclama o mestre:
“Ó
peste de orgulho, que fazes tu aí? Por que persuadir o riacho a separar-se de
sua fonte? Por que persuadir o raio de luz a romper sua ligação com o Sol? Por
que, senão para que o riacho, cessando de ser alimentado pela fonte, seque, e o
raio de luz, cortada a sua união com o Sol, se converta em treva? Por que,
senão para que assim ambos, no mesmo instante em que cessam de receber o que
ainda não têm, percam imediatamente aquilo mesmo que já têm?”
E assim é que o homem soberbo, arvorando-se como
causa do bem que Deus lhe deu graciosamente, atribui-se uma honra que só cabe a
seu Criador. O soberbo rouba a glória de Deus e, fazendo isso, desencadeia
sobre si todos os males. A soberba, portanto, nos despoja do próprio Deus.
Por isso, a primeira petição do Pai-Nosso suplica
que Deus nos conceda a graça de reconhecê-Lo sempre como a fonte de todo o bem:
“Pai nosso, que estais no céu, santificado seja o vosso nome”. Isto é: que Deus
seja glorificado como causa de todo bem existente em nós e em todas as suas
criaturas.
O riacho deve ser grato à fonte que o alimenta. O
raio de luz deve reconhecer o Sol como causa de seu brilho. Só assim
continuarão a correr e a iluminar.
Na primeira petição da oração que nos foi ensinada
pela própria Sabedoria encarnada, rogamos que Deus nos conceda a compreensão e
o reconhecimento da Sua excelência e transcendência, e que assim, por meio do
dom do Temor de Deus Altíssimo, sejamos humildes e curemos a enfermidade do
nosso orgulho.
O orgulho é em nós uma doença grave que gera sempre
outros males e enfermidades. Ele nos faz amar o bem que Deus nos concedeu como se
fosse nosso, produzido, em nós, por nós mesmos. É o orgulho que faz o riacho
julgar-se fonte e o raio de luz julgar-se o Sol.
2 – Inveja versus “Venha a nós o vosso
Reino” e o dom da Piedade
Quando o homem se deixa dominar pela soberba, ele
passa a amar o bem que recebeu não porque é bem, mas só porque é seu. E, quando
vê o mesmo bem existindo em outro homem, não o ama como bem, mas o detesta
porque está em outro. Ele quereria que aquele bem não existisse no outro,
porque julga que aquele bem só deveria existir nele mesmo, falsa fonte do bem.
Vendo o bem, que julgava ser seu, em outro homem, o orgulhoso fica então triste
e amargo.
Tal tristeza amarga se chama inveja, e é a segunda
doença que acomete o homem, o segundo vício capital.
A soberba gera sempre a inveja do bem que Deus
concedeu a outrem. Desse modo, ela nos separa e despoja de nossos irmãos, assim
como a soberba nos despojara e separara de Deus, nosso Criador. E isso é bem
justo, porque, assim como o soberbo se regalara desregradamente com a doçura de
possuir o bem, agora ele se amargura ao ver o bem no outro.
Quanto mais o homem soberbo se vangloria de seu
bem, mais ele se atormenta com o bem nos outros. A inveja rói o soberbo e torna
amarga a sua vida.
Se o homem soberbo amasse corretamente o bem que
lhe foi dado em grau limitado, ele amaria sem limite a Fonte de todo o bem, que
o possui infinitamente. Amando então o Bem em si mesmo, ele amaria o bem que
visse em qualquer outro homem e se alegraria com a virtude alheia, porque
amaria Deus no outro.
Foi para combater este segundo vício capital que o
Divino mestre nos ensinou a pedir, em segundo lugar no Pai-Nosso, “Venha a nós
o vosso reino”.
Porque o Reino de Deus é a salvação dos homens;
porque Deus reina num homem quando este lhe está unido pela fé e pela caridade,
a fim de que, na eternidade, esteja para sempre unido a Deus pela visão
beatífica.
Quando pedimos a Deus que Ele reine em todas as
almas, Ele nos concede o dom da Piedade, que nos torna benignos, desejando
também para os outros o bem que desejamos para nós mesmos.
A inveja, por sua vez, gera em nós uma nova doença.
Tal como a soberba nos persuadira de que somos a causa do bem que temos, e a
inveja nos causa a tristeza de ver o bem nos outros, em seguida a inveja nos
leva a considerar que Deus é injusto ao dar o bem – que pretendíamos fosse
apenas nosso – a nosso irmão.
3 – Ira ou
cólera versus “Seja
feita a vossa vontade, assim na terra como no céu” e o dom da Ciência
Consideramos então que o Criador reparte mal os
Seus bens, e que nos fez injustiça. Por isso, caímos em cólera contra Ele. A
ira é então a filha da inveja. Ela nos leva a revoltar-nos contra Deus como
justo distribuidor dos bens.
A soberba despoja o homem de Deus. A inveja o
separa e despoja dos demais homens. A cólera o despoja de si mesmo, fazendo-o
perder o controle e o domínio do próprio ser. Porque o colérico tem raiva de
Deus, a quem acusa de repartir injustamente os Seus bens, e se enraivece contra
si mesmo, porque vê que não possui todo o bem e percebe seus defeitos e
limitações.
A cólera leva então o homem a ter raiva de Deus,
dos outros e, enfim, de si mesmo. Com raiva de si mesmo, o homem, doente pelo
vício da cólera, começa a detestar até o bem que tem em si.
Por todas estas razões é que Nosso Senhor colocou
como terceira petição do Pai-Nosso “Seja feita a vossa vontade, assim na terra
como no céu”.
É a conformação com a vontade de Deus que nos
permite vencer o vício da cólera. Quando pedimos sinceramente a Deus, no
Pai-Nosso, que nos conformemos com a Sua Santíssima Vontade, Ele nos concede
então o dom da Ciência, através do qual somos instruídos e compreendemos que os
males que nos advêm são decorrências da justiça e de um castigo misericordioso de
nossos pecados. Compreendemos que devemos aceitá-los com paciência e não com
revolta. E compreendemos ainda que os bens alheios são fruto da generosa
misericórdia e justiça de Deus, a qual visa sempre a Sua maior glória e também
o nosso maior bem.
O colérico, no entanto, não tendo o dom da Ciência,
não reconhece que mereceu o castigo que sofre – e se revolta. Já quem tem o dom
da Ciência tudo suporta e é consolado.
Caindo nesta terceira enfermidade, a da cólera, o
homem já não possui, em si, nenhum motivo de alegria nem de consolação. Como
não quis tirar do bem alheio a alegria, o invejoso caiu na tristeza e no
autossuplício da cólera, que o flagela depois que foi despojado de Deus, do
próximo e de si mesmo.
4 – Tristeza ou
preguiça versus “O
pão nosso de cada dia nos dai hoje” e o dom da Fortaleza
Não encontrando mais em si nem alegria nem
consolação, o homem colérico cai na tristeza. Esse era o nome que os medievais
davam à preguiça, porque o vício capital da preguiça leva a ter tristeza com o
bem que recebeu de Deus, visto que esses bens nos trazem obrigações.
Os vícios capitais anteriores, como vimos, fazem o
homem perder todo o amor ao bem que Deus lhe deu. Agora, dominado pela cólera,
ele já não tem alegria nem no próprio bem, e este bem ainda lhe exige
cumprimento de deveres, porque a quem muito foi dado, muito será pedido.
Desconsolado e triste, o homem soberbo, invejoso e colérico lamenta as
obrigações que trazem os bens que Deus lhe havia dado e tem pouca vontade de
trabalhar na vinha de Cristo. É da cólera que nasce a preguiça ou tristeza. O
colérico preferiria que Deus não lhe desse bem algum, para não ter mais
obrigações. A tristeza ou preguiça ata o homem à coluna da inércia e o fustiga
de tristeza.
Ora, o que nos dá força para trabalhar com alegria
e incansavelmente na vinha do Senhor é o pão de cada dia. Por isso, para
combater a falta de generosidade no serviço de Deus, Jesus nos faz pedir no
Pai-Nosso: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje”.
Isto é, que Deus nos conceda a graça e a força necessárias
para cumprir os nossos deveres de cada dia. Que Deus nos dê Suas graças e força
para cumprirmos os deveres que elas nos acarretam. E esta força de agir é que
traz ao homem a alegria do dever cumprido.
Com “o pão nosso de cada dia” o que pedimos é o dom
da Fortaleza, o qual nos dá força e paciência para enfrentar as dificuldades,
trabalhos e cruzes da nossa vida de cada dia. É o dom da Fortaleza que produz
em nossa alma a fome e a sede de justiça de que necessitamos para ir ao céu.
Na quarta petição, portanto, pedimos a fome de
justiça e o pão que a sacia.
E que rio de maldade vai ser gerado pela preguiça
ou tristeza?
Da tristeza nascerá a vontade de buscar consolação
nos bens exteriores, porque aquele que não encontra bem ou alegria dentro de si
procurará consolação fora de si.
5 – Avareza versus “Perdoai as nossas
dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores” e o dom do Conselho
Da preguiça virá, então, a avareza, a cobiça
desmesurada de bens materiais. Quem não tem fome e sede de justiça terá fome e
sede de ouro, e fará da fortuna a sua justiça. E à ausência de consolação e de
alegria interiores se somará a inquietude pela aquisição e pela conservação dos
bens materiais, que só trazem falta de paz, inquietação, apreensão de males e
perturbação de espírito.
A sede de bens materiais somente cresce com a posse
deles, e jamais o homem estará saciado pela riqueza. A riqueza é uma água que
faz crescer sempre mais a sede por ela.
Para combater essa miséria e essa quinta doença –
tão baixa – da alma, Cristo nos mandou que pedíssemos, em quinto lugar:
“Perdoai as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores”.
Pois é bem justo que quem não é avarento no que lhe
é devido não seja também inquietado pelo que deve. O misericordioso com os seus
devedores alcançará misericórdia para si. E quando pedimos a Deus o perdão de
nossas dívidas, no mesmo grau em que estamos dispostos a perdoar o que se nos
deve, o que pedimos e recebemos é o dom do Conselho.
Por esse dom do Espírito Santo sabemos e temos
força para exercer de bom coração a misericórdia para com quem nos ofende, e do
modo mais conveniente, e na hora oportuna, para lhes fazer o bem em troca do
mal que nos deram.
6 – Gula versus “Não nos deixeis cair em
tentação” e o dom da Inteligência ou Entendimento
Do rio vicioso da avareza, caso ele não seja
vencido em nós pela ação da graça, nascerá um rio mais lamacento ainda, que é o
rio da gula. E é lógico que, buscando os bens inferiores, o homem seduzido
pelas riquezas – nelas não encontrando verdadeira consolação, mas só ainda
maior inquietação – procure então num bem inferior, que está nele mesmo, aquilo
que os bens inferiores externos não lhe puderam dar.
Ele busca então o prazer dos sentidos, e, em
primeiro lugar, o prazer do comer, visto que todo homem, precisando
alimentar-se, necessariamente tem que ser tentado pela gula.
Esse vício seduz o homem e o reduz a um nível
inferior ao dos animais. Aquele homem, pois, que quis se igualar a Deus
colocando-se orgulhosamente como causa do próprio bem, cai agora abaixo dos
animais, que só comem o que lhes é necessário.
Para combater este sexto e tão baixo mal, Cristo
nos ensina a pedir na oração dominical: “Não nos deixeis cair em tentação”.
Note-se que não se pede não ter a tentação da gula.
Visto que é necessário que o homem coma, todo homem estará exposto à tentação
do comer desregradamente. A gula explora o apetite natural de subsistência,
levando-nos ao excesso. A pretexto de necessidade, a gula nos induz a comer
irracionalmente.
Por isso, para combatê-la, pedimos a Deus, na sexta
petição do Pai-Nosso, que nos conceda o dom da Inteligência. Porque é o apetite
da palavra de Deus que contém o homem na justa medida do apetite do pão
material, já que “nem só de pão vive o homem”. Mas só entende isso quem tem o
espírito de Inteligência, que faz compreender a superioridade dos bens
espirituais sobre os materiais, fazendo o homem vencer a gula pelo jejum e
abstinência, e a avareza acumuladora pela confiança na Providência.
É o espírito de Inteligência que clarifica a visão
interior do homem pelo conhecimento da Palavra de Deus, que age como um colírio
no olho da sabedoria.
7 – Luxúria versus “Livrai-nos do mal” e o
dom da Sabedoria
Seduzido pelo rio lamacento da gula, o homem
pecador é arrastado ao pântano final, onde fica atolado, sujo e preso: a
luxúria escravizadora.
Quando o homem se entrega ao prazer da gula, a sua
alma se torna débil e já não consegue dominar o ardor das paixões carnais.
Caindo na luxúria, ele fica escravizado, porque nenhuma paixão tem maior poder
de domínio sobre o homem do que a impureza. Escravo dos amores impuros, o homem
jaz na servidão do demônio, da qual dificilmente se liberta, a não ser pela
oração e penitência.
Este é o sétimo e fétido rio dos vícios da
Babilônia, do qual, no Pai-Nosso, é pedida apropriadamente a libertação:
“Livrai-nos do mal”.
É bem natural que o homem escravizado suspire e
implore pela sua liberdade. E a sétima petição do Pai-Nosso nos implora de Deus
Altíssimo o dom da Sabedoria, que torna o homem realmente livre.
Ora, a palavra sabedoria tem a mesma raiz de sabor.
Movida pela graça e sentindo o sabor da Sabedoria, a alma se liberta da
escravidão dos prazeres materiais e pode, enfim, alçar voo para contemplar a
Deus.
Portanto, é a doçura interior e espiritual que dá
ao homem a força de vencer a volúpia mentirosa dos sentidos.
Só então, na posse da Sabedoria e libertada dos
vícios, a alma terá a paz de Cristo, que não é a paz deste mundo.
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Adaptado
a partir de postagem do blog Modéstia Masculina

Edição Inglês

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