“Pedimos-te perdão porque fizemos da água uma mercadoria”: O apelo do Papa para setembro
Publicado
em 05/09/2026
Poucas frases da
nova intenção de oração do Papa Leão XIV são tão diretas quanto esta. Para o
mês de setembro, o Papa pede aos católicos que rezem “pelo cuidado com a
água” e chama a atenção para uma realidade que atinge milhões de pessoas:
enquanto alguns têm água à disposição diariamente, outros ainda precisam
caminhar quilômetros para encontrá-la.
A
oração, divulgada pelo Vaticano em 1º de setembro, começa por apresentar a água
como um dom de Deus:
“Tu
nos deste o dom da água, fonte de fecundidade, frescura e esperança.”
Ela
mata a sede, fecunda a terra e cura feridas. Mas, para Leão XIV, a água também
aponta para uma realidade espiritual: é “símbolo da tua graça e do teu
amor”, que renova o ser humano através do Batismo.
Por
isso, o cuidado com a água não aparece na oração apenas como uma preocupação
ambiental. É apresentado como uma questão de gratidão, justiça e
responsabilidade.
“Fizemos
dela mercadoria”
É
neste ponto que a oração ganha uma força especial.
“Pedimos-te perdão porque fizemos
dela mercadoria, esquecendo que é um presente universal, um direito sem
fronteiras, destinado a todos os teus filhos.”
O
Papa não suaviza a expressão. Ele fala em pedido de perdão.
A
água, que deveria ser reconhecida como um dom universal e um direito de todos,
acabou sendo tratada também segundo uma lógica de mercadoria.
A
pergunta que a oração deixa para cada um de nós é simples e incômoda: o
que acontece quando começamos a tratar como produto aquilo de que todos
dependemos para viver?
A
resposta está nas pessoas que Leão XIV coloca no centro da sua oração.
Há
quem caminhe quilómetros por água
O
Papa pede que a Igreja não permaneça indiferente diante daqueles que sofrem com
a falta de água potável.
“Com dor vemos tantos irmãos e
irmãs sem acesso a água potável, que caminham quilómetros para a encontrar, e
que adoecem por causa da sua escassez.”
É
uma das passagens mais concretas da oração.
Não
se trata apenas de falar sobre rios, oceanos ou preservação da natureza.
Trata-se de pessoas. Pessoas que caminham. Pessoas que têm sede. Pessoas que
adoecem.
A
intenção de setembro coloca, assim, a água diante do cristão como uma questão
de vida e de dignidade.
E
o pedido do Papa é ainda mais específico:
“Defendendo o direito de
cada irmão e irmã a beber sem medo, sem desigualdade.”
Duas
expressões que tornam a oração particularmente concreta. Não basta que exista
água: é preciso que as pessoas possam ter acesso a ela sem medo e sem que a
condição social determine quem pode ou não beber água segura.
Um
chamado também para quem tem água todos os dias
Para
quem abre uma torneira diariamente, a falta de água pode parecer uma realidade
distante. Mas a oração do Papa convida a mudar esse olhar.
Leão
XIV pede que o Espírito Santo nos transforme em “peregrinos do essencial,
capazes de viver com sobriedade”.
E
dá nomes às atitudes que precisam ser enfrentadas:
“Denunciando
o desperdício e a contaminação.”
É
uma passagem particularmente importante porque transforma a oração em
responsabilidade concreta.
Cuidar
da água significa não desperdiçá-la. Significa não contaminá-la. Significa
reconhecer que aquilo que parece abundante para alguns pode ser justamente
aquilo que falta a outros.
A
intenção do Papa não pede apenas consciência. Pede mudança de atitude.
No
final da oração, Leão XIV resume a dimensão espiritual desse cuidado:
“Que
o nosso cuidado com a água seja sinal de amor ao Criador e compromisso com a
vida dos mais pobres.”
É
talvez a frase que melhor reúne toda a intenção de setembro.
Cuidar
da água é amar o Criador. Mas é também comprometer-se com os mais pobres.
O
Papa não separa essas duas coisas. O cuidado com a criação e o cuidado com as
pessoas aparecem unidos.
Por
isso, a oração termina olhando para o futuro e para aqueles que ainda estão
aprendendo a relação que devem ter com os recursos da Terra:
“Educando
novas gerações que valorizem e protejam os recursos da Terra.”
A
responsabilidade começa agora, mas não termina em nós.
Uma
oração que pede mais do que consciência
A
intenção de oração de setembro não é apenas um convite para fechar a torneira
ou evitar o desperdício, embora essas atitudes também façam parte dela.
É
um convite para reconhecer novamente o que a água é: um dom, uma
necessidade universal e um compromisso com a vida.
O
Papa Leão XIV pede perdão porque a transformamos em mercadoria. Recorda aqueles
que caminham quilómetros para encontrá-la. Denuncia o desperdício e a
contaminação. E pede que ninguém seja privado do direito de “beber sem
medo, sem desigualdade”.
No
fundo, a oração coloca diante de nós uma verdade muito simples: cuidar
da água é cuidar da vida.
E,
para o cristão, é também uma maneira concreta de agradecer ao Criador pelo dom
que recebeu.
“Senhor
da Vida, Tu nos deste o dom da água.”
É com essa consciência que a Igreja é convidada a rezar durante todo o mês de setembro.

Edição Portuguese

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