Setembro Amarelo: Quando falta a esperança, Deus ainda permanece.
Publicado
em 12/09/26
Há dores que ninguém vê. Há pessoas que continuam trabalhando,
sorrindo, conversando, cuidando dos filhos, respondendo mensagens e cumprindo
suas obrigações enquanto, por dentro, sentem que já não sabem como continuar.
Nem
toda dor faz barulho. Algumas chegam em silêncio. E, quando a dor se prolonga,
pode surgir uma pergunta assustadora:
“Para
que continuar?”
É
sobre essas dores que o Setembro Amarelo nos convida a falar.
Falar
sobre saúde mental é, antes de tudo, falar sobre pessoas. Pessoas que, em
determinados momentos da vida, podem se sentir cansadas demais, sozinhas demais
ou feridas demais para enxergar uma saída.
E
talvez uma das coisas mais dolorosas seja justamente esta: quando a pessoa não
consegue mais imaginar um futuro diferente do sofrimento que está vivendo hoje.
Quando
a dor rouba o sentido
Na
psicologia, sabemos que momentos de sofrimento intenso podem alterar a maneira
como enxergamos a realidade. A mente pode se tornar mais rígida, o futuro
parece fechado e aquilo que antes tinha significado pode perder o brilho.
A
pessoa não necessariamente quer deixar de existir. Muitas vezes, ela quer
apenas deixar de sofrer. Essa diferença é fundamental.
Por
isso, diante de alguém que está sofrendo, precisamos trocar o julgamento pela
presença. Em vez de perguntar “por que você está assim?”, talvez seja mais
importante dizer:
“Eu
estou aqui. Você não precisa atravessar isso sozinho.”
Escutar
pode ser uma forma de cuidado. Perguntar pode ser uma forma de amor. E levar
alguém a buscar ajuda pode ser uma forma concreta de esperança.
E
onde está Deus quando a vida dói?
Essa
é uma pergunta que atravessa a alma humana.
Porque,
quando tudo parece desmoronar, é possível que até a oração se torne difícil. Há
momentos em que não conseguimos encontrar palavras para Deus. Momentos em que
rezar parece não produzir consolo. Momentos em que a pessoa olha para o céu e
pergunta, entre lágrimas:
“Senhor,
onde estás?”
A
própria Bíblia não esconde o sofrimento humano.
Os
Salmos estão cheios de clamor, medo, angústia e silêncio. Jó questiona.
Jeremias lamenta. Cristo, no Getsêmani, experimenta a agonia. Na cruz, Jesus
pronuncia palavras que atravessam os séculos: “Meu Deus, meu Deus, por
que me abandonaste?”
A
fé cristã não nos promete uma vida sem sofrimento. Ela nos revela algo ainda
mais profundo: Deus não permanece distante da nossa dor. Ele entra
nela.
Cristo
não é um Deus que observa o sofrimento humano de longe. Ele conhece a solidão,
o abandono, as lágrimas, a angústia e a dor.
Por
isso, quando alguém atravessa uma noite escura da alma, talvez não precise
ouvir que “tudo acontece por uma razão” ou que “basta ter fé”.
Talvez
precise primeiro sentir que pode chorar, que pode dizer que está cansado. que
pode admitir que não está bem, que pode pedir ajuda.
E
que, mesmo quando não consegue perceber a presença de Deus, isso não significa
que Deus tenha deixado de estar presente.
A
esperança nem sempre parece esperança
Existe
uma ideia equivocada de que ter esperança significa acreditar que tudo dará
certo. Nem sempre.
Às
vezes, esperança é simplesmente acreditar que é possível chegar até amanhã. É
levantar da cama. É tomar um banho. É contar para alguém que não está bem. É marcar
uma consulta. É aceitar ajuda. É permanecer, mesmo sem compreender ainda por
que permanecer.
Na
fé, a esperança não é uma ingenuidade diante da realidade. Ela nasce justamente
quando reconhecemos que, sozinhos, não somos capazes de controlar tudo.
A
esperança cristã olha para além daquilo que os olhos conseguem enxergar.
E
talvez seja isso que precisamos recordar quando a dor nos convence de que nada
mais pode mudar: o sofrimento de hoje não é capaz de contar toda a
história da nossa vida.
O
capítulo que estamos vivendo não é necessariamente o capítulo final.
Fé
e psicologia podem caminhar juntas
Buscar
ajuda psicológica não é sinal de falta de fé.
Assim
como procurar um médico quando o corpo adoece não significa falta de confiança
em Deus, cuidar da saúde mental também não significa abandonar a vida
espiritual.
Deus
pode agir por meio de muitas formas de cuidado: através de uma oração, de uma
comunidade, de um sacerdote, de um amigo, da família e através de um
profissional preparado para acolher e acompanhar o sofrimento psíquico.
A
psicoterapia pode ajudar a pessoa a compreender sua história, reconhecer suas
feridas, identificar padrões de pensamento e comportamento, reconstruir
vínculos, desenvolver recursos emocionais e, pouco a pouco, reencontrar
possibilidades onde antes parecia existir apenas um vazio.
Às
vezes, a pessoa não precisa encontrar imediatamente um grande sentido para a
vida.
Precisa
apenas encontrar um pequeno motivo para permanecer hoje. Depois,
outro amanhã.E mais um depois.
Até
que, pouco a pouco, aquilo que parecia impossível comece novamente a ganhar
forma.
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Edição Portuguese

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