Uma capela que é um pedaço do céu em
Sorocaba
Publicado
em 14/08/26
Uma capela de sete por quatro metros reproduz a igrejinha de Assis onde nasceu a Ordem Franciscana, oferecendo um porto de silêncio,
Há
um silêncio particular que não pertence ao barulho dos motores nem à pressa das
calçadas da Vila Hortência. É um silêncio antigo, revestido com cheiro de pedra
talhada, tijolo rústico e madeira fresca. Quem caminha pelas ruas de Sorocaba,
cidade que a história acostumou a chamar de Manchester Paulista por causa das
engrenagens do seu passado têxtil e industrial, raramente imagina que, ao
cruzar os portões do Convento Bom Jesus dos Aflitos, a geografia do mundo ganha
uma dobra inesperada. Ali, nos fundos do claustro, a milhares de quilômetros do
verdejante vale da Úmbria, na Itália, ergue-se uma capela de proporções
modestas que desafia a lógica dos grandes monumentos: uma réplica viva, em
escala e alma, da Porciúncula de
Santa Maria dos Anjos.
A
Porciúncula original — aquela "pequena porção" de terra e pedra
restaurada com esforço e devoção pelas mãos de Francisco de Assis por volta de
1210 — tornou-se o coração fontal e o berço do franciscanismo. Foi naquele
espaço minúsculo que o Poverello compreendeu a radicalidade do Evangelho,
reuniu seus primeiros companheiros, acolheu a jovem nobre Clara de Favarone em
1212 e obteve do Papa Honório II a histórica Indulgência do Perdão. Morreu ali
mesmo, em outubro de 1226, deixando aos seus frades o pedido para que jamais
abandonassem aquele lugar santo. Em Sorocaba, oito séculos depois, essa mesma
memória ancestral renasceu do desejo ardente de uma fraternidade que decidiu
reconstruir a casa e trazer para o interior paulista a mística do Santo de
Assis.
A
arquitetura do invisível
Concebida
sob a sensibilidade artística do pároco Frei Benedito Gonçalves, o Frei Dito, e
abraçada com entusiasmo por Frei Gilberto Piscitelli e Frei André Becker, a
capela sorocabana exigiu mais de um ano de dedicação coletiva. Com exatos sete
metros de comprimento por quatro de largura, a edificação não busca apenas
imitar a forma externa do santuário italiano, mas traduzir seus símbolos
teológicos mais profundos em cada detalhe.
A
começar pelas pesadas portas entalhadas em cedro, doadas pela família de Frei
André, que se abriram pela primeira vez sob a condução das mãos calejadas do
pedreiro Aldevino da Silva — um gesto carregado de poesia que recordou a todos
que o sagrado se constrói na simplicidade do trabalho humano. No interior, a
luz atravessa os vitrais ofertados pela Ordem Franciscana Secular, projetando
cores sobre um piso de requinte impressionante. Formado por quase mil peças de
mármore e granito ajustadas com paciência cirúrgica, o chão reproduz o desenho
hexagonal da Capela dos Estigmas do Monte Alverne e abriga, incrustada no
centro, uma relíquia autêntica de São Francisco.
Sobre
o altar, construído com pedra que evoca a noite mística do primeiro presépio em
Greccio, sobressai a figura do Crucifixo de São Damião, pintado à mão pelo
próprio Frei Dito contra a rusticidade dos tijolos aparentes. É a imagem do
Cristo vivo que, segundo a tradição, ordenou a Francisco que restaurasse a sua
Igreja em ruínas. Ao lado do tabernáculo eucarístico e da imagem do Menino
Jesus, a igrejinha sorocabana sintetiza o tripé devocional franciscano: a
Encarnação, a Paixão e a Eucaristia.
A
capela como um abrigo de paz
Enquanto
na Itália a igrejinha original acabou envolvida, ao longo dos séculos, pela
monumentalidade da imensa Basílica de Santa Maria dos Anjos — projetada no
século XVI para acolher as multidões de peregrinos que vinham buscar o Perdão
de Assis —, a versão de Sorocaba preserva o charme e o aconchego do pátio a céu
aberto. Ela se integra harmoniosamente ao cotidiano da Paróquia Bom Jesus dos
Aflitos.
Para
os freis que cuidam do espaço e para os fiéis que frequentam a Vila Hortência,
o local ultrapassa o valor estético de uma obra de arte. Trata-se de um porto
de desaceleração e cura interior..
Na velocidade do mundo contemporâneo, dominado pelo ruído e pela urgência, a capela sorocabana permanece de portas abertas como uma promessa de alívio. Ela nos lembra que o Perdão de Assis não é um fato esquecido nos livros de história medieval, mas uma experiência viva e ao alcance de quem busca reconciliação. Sob as bênçãos do Poverello e a proteção de Nossa Senhora dos Anjos, a igrejinha de Sorocaba continua a cumprir o seu papel mais nobre: ser uma porção modesta de terra onde o céu se faz infinitamente próximo de cada coração aflito.

Edição Portuguese

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