A oração do Papa chega às periferias. E nós, cristãos, chegamos até elas?
Publicado
em 14/08/26
Por um olhar atento
sobre o chão da cidade, a intenção de oração do Papa Leão XIV e a Campanha da
Fraternidade de 2026 cruzam seus caminhos para fazer uma pergunta simples e
urgente: como viver em comunidade quando falta até onde morar?
Quem
anda pelas ruas de uma grande metrópole brasileira conhece bem aquele contraste
que aperta o peito. De um lado, sobem os prédios altos de vidro, espelhados e
frios. Do outro, sob marquises ou erguidos com tábuas improvisadas nos morros e
baixadas, homens, mulheres e crianças tentam apenas existir. A cidade grande
corre apressada, no balanço duro do ônibus, no olhar esquivo de quem cruza a
calçada sem enxergar o vizinho.
Neste
mês de agosto de 2026, lá de Roma, o Papa Leão XIV olhou para essa mesma
paisagem urbana e fez um pedido de oração aos fiéis de todo o mundo: rezar pela
evangelização nas cidades, buscando novas formas de anunciar o Evangelho onde o
anonimato e a solidão costumam vencer. Esse pedido de Roma não ficou flutuando
no ar. No Brasil, ele encontrou chão firme, ecoando direto nas novas Diretrizes
Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE 2026-2032) e
na Campanha da Fraternidade de 2026, que escolheu como tema um grito que vem do
peito de milhões de brasileiros: "Fraternidade e Moradia".
A
ferida da moradia
Não
é por acaso que a voz do Papa e a da Igreja no Brasil falam a mesma língua. O
Pontífice lembra que a vida urbana moderna criou um certo culto ao indivíduo,
onde cada um se fecha na própria opinião e na sua rotina. Mas a solidão da
cidade não é feita apenas de portas fechadas; ela é feita de carências
concretas. Nas diretrizes dos bispos brasileiros, a lista de dores da cidade
abre espaço para a pobreza, o desemprego, a falta de saneamento básico, a violência,
a devastação ambiental e a precarização do teto.
É
aí que o assunto deixa de ser apenas discurso e vira pele, osso e tijolo. A
negação do direito à casa no Brasil é uma ferida histórica que sangra desde o
fim dos mais de 400 anos de escravidão, quando os ex-escravizados foram jogados
à própria sorte sem acesso à terra e à moradia.
Os
números mostram o tamanho desse desafio urbano: cerca de um terço da população
do país enfrenta algum tipo de precariedade habitacional. São aproximadamente 6
milhões de famílias (cerca de 10% da população) que necessitam imediatamente de
uma casa digna — gente morando em condições muito precárias, esmagada por
aluguéis elevados ou dependendo de moradia cedida por terceiros. Ao mesmo
tempo, outros 80 milhões de brasileiros (26 milhões de famílias) vivem em
habitações inadequadas nas cidades. E o maior paradoxo desse cenário é ver
cerca de 12 milhões de imóveis vazios espalhados pelo país enquanto tantas
famílias não têm onde se proteger do frio ou da chuva.
O
Papa pede para plantar a fraternidade
Diante desse deserto de concreto e desigualdade, qual é a resposta? Tanto a intenção de oração do Papa Leão XIV quanto as diretrizes da Igreja e a Pastoral da Moradia e Favela apontam para a mesma direção: é preciso reconstruir a vida em comunidade.
O
Papa deseja que sejam descobertos "caminhos
criativos para construir comunidade". As Diretrizes da Ação
Evangelizadora respondem propondo a imagem viva de "armar a tenda no hoje
da história", criando comunidades abertas e acolhedoras. Inspiradas nas
primeiras comunidades do livro dos Atos dos Apóstolos (At 2, 42), essas
pequenas comunidades de discípulos missionários nascem da escuta da Palavra, da
comunhão, da oração, da Eucaristia e do testemunho da fé no cotidiano. A fé
cristã não é um ato isolado; a Trindade é uma comunidade de amor e a fé pressupõe
viver juntos na partilha e na caridade.
Essa comunidade de fé não pode ficar trancada entre quatro paredes enquanto a periferia ao lado sofre e se torna oração e ação por meio de uma organização pastoral. Fruto da 6ª Semana Social Brasileira (2022-2023), a Pastoral da Moradia e Favela vem articulando lideranças comunitárias pelo país. Atualmente com cerca de 30 grupos em formação nas dioceses, a meta é chegar a 300 equipes para acompanhar famílias ameaçadas de despejos ou afetadas por enchentes e deslizamentos, além de lutar por políticas públicas de habitação.

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