Penúltimos ou últimos
desejos a serem alcançados?
Publicado em 23/08/2026
Talvez a chave para
descobrir o que realmente nos satisfaz esteja em aprender a distinguir entre
nossos últimos e penúltimos desejos.
Parece
um detalhe insignificante, quase uma nuance. No entanto, pode mudar tudo. O
Cardeal Carlo Caffarra enfatizou essa
ideia em suas palestras, escritos e homilias, especialmente quando se dirigia
aos jovens. Ele costumava fazer uma pergunta simples: o que vocês desejam, são
desejos penúltimos ou últimos?
Será
que todos os nossos desejos apontam para o mesmo lugar?

Entre nossos desejos penúltimos podem estar a vontade de sair para festejar, ir a uma balada, se divertir, escapar da rotina, sentir a adrenalina de uma noite fora, comprar algo que desejamos ou acumular experiências que nos façam sentir vivos por algumas horas. Essas coisas não são necessariamente ruins. O problema surge quando confundimos esses desejos com os nossos desejos finais, quando lhes pedimos para desempenhar uma função para a qual não foram concebidos.
Um
penúltimo desejo nos traz prazer. Um último desejo nos traz felicidade. A
diferença fica clara quando nos fazemos uma pergunta muito simples: você
gostaria que isso durasse para sempre?
Ninguém
quer passar a vida inteira em uma boate. Nem mesmo quem adora dançar. Ninguém
quer que uma noite de festa dure anos. O prazer precisa acabar antes que possa
ser buscado novamente.
Mas
queremos que aquilo que realmente amamos dure para sempre. Queremos encontrar
alguém para amar e sermos amados. Queremos uma família. Queremos pertencer a
algum lugar. Queremos que nossas vidas tenham um significado que não desapareça
quando as luzes se apagarem.
Uma
sociedade guiada pelos sentimentos
Essa
é a diferença. E talvez seja aqui que comece um dos grandes problemas do nosso
tempo: transformamos desejos penúltimos em desejos finais.
Uma
sociedade inteira está determinada a nos convencer de que o que importa é
sentir. Sentir mais, sentir mais cedo, sentir tudo. Uma noite mais intensa. Uma
viagem mais espetacular. Uma compra que nos empolga. Um relacionamento que nos
faz vibrar. Um corpo que nos faz sentir desejáveis. Um celular que nos faz
sentir que não estamos ficando para trás.
Os
fogos de artifício brilham intensamente, mas duram muito pouco tempo. E
enquanto perseguimos o próximo clarão, deixamos de nos perguntar o que
realmente buscamos.
Caffarra
usou uma expressão particularmente gráfica: estamos decapitando nossos
verdadeiros desejos para alimentar os penúltimos. E talvez isso explique grande
parte da insatisfação que vemos ao nosso redor.
Porque
o coração humano não se satisfaz apenas com prazer.

Podemos
oferecer-lhes entretenimento, consumismo, sexo, viagens, festas, telas e
experiências. Podemos preencher cada minuto do dia para que não tenham a
oportunidade de se questionar sobre nada. Podemos até mesmo ensinar nossos
filhos desde muito cedo o que querem comprar, mas não necessariamente o que
querem ser. Mesmo assim, algo ainda estará faltando.
Porque
os desejos penúltimos têm um porém: prometem muito e duram pouco.
Proporcionam-nos prazer e depois deixam-nos com vontade de mais.
Para
alcançar a verdadeira satisfação
Talvez
seja por isso que precisamos revisitar uma questão essencial que é
incrivelmente relevante hoje: aquilo que estou buscando me fará feliz, ou
simplesmente me proporcionará algum prazer?
Não
se trata de abrir mão de festas, relaxamento, coisas belas ou dos pequenos
prazeres da vida. Trata-se de colocar tudo em seu devido lugar. De não pedir em
uma noite de diversão o que só uma vida compartilhada pode oferecer. De não
pedir em uma compra o que só o significado pode proporcionar. De não pedir
prazer o que só o amor pode dar.
Talvez
discernir entre nossos últimos e penúltimos desejos seja uma das questões mais
importantes que podemos nos fazer.
Porque
quando confundimos os dois, podemos passar a vida obtendo exatamente o que
pensávamos querer e descobrindo, repetidamente, que não era o que precisávamos.

Edição Espanhol

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