Autossuficiência: Será que realmente fomos feitos para viver sozinhos?
Publicado
em 31/08/2026
Em uma sociedade que
exalta a autossuficiência, a necessidade de comunidade nos lembra que viver em
relacionamento também faz parte da nossa natureza.
Quão
boa é a ideia de ser autossuficiente?
Constantemente
nos dizem que podemos fazer tudo sozinhos. Basta olhar para alguns filmes,
séries de TV ou livros para encontrar o mesmo personagem: alguém que vive de
forma independente, não precisa de ninguém e está pronto para descobrir o mundo
sem amarras.
A
ideia pode parecer atraente. Ser independente, tomar nossas próprias decisões e
não depender dos outros pode parecer um sinal de sucesso. Mas quando essa forma
de pensar se torna um estilo de vida, surge uma pergunta que parece cada vez
mais difícil de ignorar: Para onde foram nossos pais? O que aconteceu com
nossos amigos da escola? E aquelas pessoas que um dia fizeram parte de nossas
vidas?
Porque
por trás da promessa de poder fazer tudo sozinho, pode-se esconder uma
realidade menos atraente: a solidão.
Estamos
vivendo uma epidemia de solidão.
A Organização Mundial da
Saúde (OMS) estima que 1 em cada 6 pessoas no mundo sofre de solidão.
O problema é ainda mais prevalente entre adolescentes e jovens adultos, bem
como em países de baixa renda.
Mas
a solidão não é apenas um sentimento desconfortável ou um estado emocional
passageiro. Suas consequências podem afetar a saúde física e mental. De acordo
com a OMS, a solidão está ligada a mais de 871.000 mortes por ano,
aproximadamente 100 por hora, além de um risco aumentado de doenças
cardiovasculares, acidente vascular cerebral, depressão, ansiedade e morte
prematura.
ArtMari | Shutterstock
Isso
nos obriga a olhar para algo que talvez tenhamos aprendido a considerar normal
de uma maneira diferente: viver desconectado dos outros.
Os
dados do Pew Research Center apontam
em uma direção semelhante. Nos Estados Unidos, adultos com menos de 50 anos,
pessoas com renda mais baixa, aquelas com menor nível de escolaridade e aquelas
que são solteiras estão entre os grupos que mais frequentemente relatam
sentir-se sozinhas ou isoladas.
Isso
não significa que ficar sozinho seja sempre ruim, nem que uma pessoa precise
estar rodeada de pessoas o tempo todo. Há momentos de silêncio, independência e
solidão que são necessários. O problema surge quando começamos a acreditar que
não precisar de ninguém é o ideal que devemos buscar.
Precisamos
de outros
Por
que essa ideia de ser completamente independente pode acabar nos prejudicando?
Porque
o ser humano precisa de vida social. O Catecismo da Igreja Católica explica
isso desta forma:
“O
ser humano necessita da vida social. Esta não é algo que lhe é acrescentado,
mas uma exigência da sua natureza. Através da troca com os outros, da
reciprocidade de serviços e do diálogo com os seus irmãos e irmãs, o homem
desenvolve as suas capacidades; assim, ele responde à sua vocação.” (CIC, 1879)
As
evidências científicas parecem confirmar, a partir de outra área, algo que a
Igreja vem apontando há séculos: não fomos feitos para viver desconectados.
A OMS destaca ainda que os seres humanos são sociais por natureza e que, ao longo da história, sobrevivemos e prosperamos graças à nossa capacidade de trabalhar em conjunto. Conectar-se com os outros influencia não só a nossa saúde, mas também a nossa capacidade de desenvolvimento na escola, no trabalho e nas nossas comunidades.
Portanto,
talvez o problema não esteja em querer ser independente, mas em ter
transformado a autossuficiência em um ideal.
Precisar
de alguém não nos torna menos valiosos. Pedir ajuda não significa que falhamos.
Ter amigos, recorrer à família, pertencer a uma comunidade ou compartilhar a
vida com outras pessoas não são obstáculos para alcançarmos nosso potencial.
Fazem parte do que significa ser humano.
Uma
só alma e um só coração
Santo
Agostinho expressa isso em sua Regra:
“Acima
de tudo, já que foi para isso que vocês se reuniram, vivam em unidade na casa,
tendo uma só alma e um só coração voltados para Deus.”
Ele
escreveu essas palavras pensando na comunidade que viveria sob sua liderança.
No entanto, por trás delas encontramos uma realidade que vai muito além da vida
religiosa: a necessidade humana de viver em comunhão com os outros.
Fomos
criados para encontrar os outros, para receber e dar, para acompanhar e ser
acompanhados. E, de uma perspectiva cristã, é precisamente através desse
encontro com os outros que também aprendemos a direcionar nossos corações para
Deus.

Edição Espanhol



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