A ciência descobriu um aliado poderoso contra a depressão na velhice
Publicado em 24/08/26
Um estudo que
acompanhou o passar do tempo na vida de 15 mil pessoas mostra que caminhar,
mexer na terra ou passear de bicicleta, sem obrigação de atleta, é um santo
escudo para proteger a mente no outono da existência.
Envelhecer,
a gente sabe, é a coisa mais natural do mundo. O tempo vai passando de
mansinho, os cabelos vão clareando e as marcas no rosto passam a contar a nossa
história. Mas, às vezes, junto com a idade, chega uma visita indigesta que não
foi convidada: a tristeza profunda, aquela nuvem cinzenta que a medicina chama
de depressão. Muita gente graúda por aí acha que ficar jururu e perder o gosto
pelas coisas é parte normal da velhice. Pois olhe: não é não.
Para
provar que a vida pode e deve continuar colorida na terceira idade, um grupo de
pesquisadores resolveu espiar a rotina de mais de 15 mil pessoas com 50 anos ou
mais, lá no Reino Unido e nos Estados Unidos, acompanhando cada um deles por
longos 12 anos. Quem puxou o fio dessa meada foi o jovem pesquisador André de
Oliveira Werneck, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde da
USP, que cruzou o oceano para estudar o assunto no King’s College London.
Ele queria entender como o movimento do corpo mexe com os botões do nosso juízo
ao longo de mais de uma década.
A
tristeza pelo mundo
A
grande novidade dessa bonita investigação foi o jeito que os cientistas usaram
para olhar os dados. Em vez de fazer aquela fotografia estática do começo do
estudo e achar que todo mundo ia se comportar igual por 12 anos, eles usaram
uma matemática fina e inteligente chamada de "emulação de
ensaio-alvo". O nome é difícil, mas a explicação é simples: é como se o computador
criasse um espelho mágico com duas realidades paralelas para o
mesmo idoso. Numa linha da vida, o sujeito continuava lá no seu rastro de
rotina; na outra, ele passava a fazer seus exercícios direitinho.
O
algoritmo limpava as desigualdades da vida real — como quem tem mais dinheiro
ou menos problemas de saúde — e nivelava todo mundo por igual. E o que essa
máquina de calcular destinos mostrou foi um acalento para o coração. Bastava a
pessoa praticar uma atividade física moderada pelo menos duas vezes por semana
para o risco de depressão despencar: caiu 12% entre os americanos e 13% entre
os ingleses. Se o exercício fosse daqueles de suar a camisa, mais vigoroso,
pelo menos uma vez por semana, a proteção subia para 13% nos Estados Unidos e
bonitos 16% no Reino Unido.
O
melhor exercício
O
professor Brendon Stubbs, um mestre da psiquiatria lá de Londres que
orientou o trabalho, conversou com a reportagem e explicou que a atividade
física é um remédio de tripla utilidade: faz bem para a mente, para o corpo e
para a autonomia do idoso. E o melhor de tudo é que não tem essa de "tudo
ou nada". Ninguém precisa puxar ferro pesado em academia ou correr
maratona se não quiser.
"Caminhar, pedalar ou fazer jardinagem, desde que elevem a frequência cardíaca, já podem trazer benefícios", ensina Stubbs com a sabedoria de quem sabe que a vida precisa de leveza. O estudo não encontrou um exercício que fosse o rei da cocada preta, superior aos outros; a musculação, a caminhada e os movimentos do dia a dia empataram em bondade para a cabeça. O segredo, segundo os cientistas, é escolher aquilo que dá gosto de fazer e, se possível, junto com os amigos. O movimento que espanta a solidão e vira prosa no meio do caminho é o que realmente funciona. Afinal de contas, gastar um pouco a sola do sapato cuidando das plantas ou proseando na praça é o jeito mais bonito de mostrar ao tempo que a nossa alma continua bem viva e em movimento.

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