O vazio que você sente nunca foi sobre o outro, sempre foi sobre você.
Publicado
em 30/08/26
Há um silêncio que
habita certos dias. Não o silêncio que se escolhe, mas aquele que se instala
quando as palavras do outro se apagam e o espaço entre dois corpos se torna
maior do que qualquer distância física. É o vazio. É a solidão. E,
paradoxalmente, é também o lugar onde a esperança aprende a respirar.
Costumamos
temer esses estados como se fossem falhas, como se o ser humano tivesse sido
desenhado apenas para o preenchimento constante.
Esquecemos,
porém, uma verdade antiga e simples: sem a solidão, talvez nunca
reconheceríamos o amor. É no contraste que a luz se revela. É na ausência que a
presença ganha peso.
Quando
tudo está garantido, o amor se confunde com hábito, com rotina, com expectativa
cumprida. Só quando o chão treme e o outro se afasta — ou simplesmente se cala
— é que o coração, desnudo, percebe o que realmente importa. A solidão não é o
contrário do amor; é, muitas vezes, a condição que o torna visível.
Sofremos
pela história que construimos
E
aqui reside outra descoberta ainda mais delicada: quase nunca sofremos pelo
outro. Sofremos pelo que inventamos dele.
Pela
história que construímos em silêncio, pelos capítulos que escrevemos sozinhos
nas noites em que a imaginação trabalha mais depressa que a realidade.
Inventamos intenções, inventamos rejeições, inventamos futuros que nunca foram
prometidos.
O
outro, na verdade, permanece em grande parte um mistério — e nós preferimos
preenchê-lo com as nossas feridas antigas, com os nossos medos, com as
narrativas que já conhecíamos antes mesmo de encontrá-lo. O sofrimento, então,
não nasce do que o outro fez, mas do romance (ou do drama) que resolvemos viver
sozinhos a respeito dele.
Há
uma liberdade escondida nessa compreensão. Se o que mais dói é, em grande
medida, criação nossa, então também podemos interromper a escrita.
Podemos
interrogar a história que contamos a nós mesmos. Podemos deixar de alimentar o
personagem que inventamos e começar a olhar, com mais honestidade, para a
pessoa real — imperfeita, limitada, humana — que existe do outro lado.
O
vazio, quando enfrentado com coragem, deixa de ser apenas ausência. Torna-se
espaço. E todo espaço, por mais escuro que pareça no início, carrega a
possibilidade de ser habitado por algo novo.
A
esperança não é a negação da solidão; é a confiança de que, mesmo dentro dela,
ainda somos capazes de escolher. Capazes de não nos afogarmos nas invenções.
Capazes de reconhecer o amor não como garantia eterna, mas como presença que se
revela precisamente porque um dia faltou.
Talvez
o amor verdadeiro comece exatamente aí: quando paramos de sofrer pelo que
imaginamos e aprendemos a estar presentes no que é. Quando o vazio deixa de ser
inimigo e se transforma em terreno fértil. Quando a solidão, em vez de nos
destruir, nos ensina o valor daquilo que realmente importa.
E
então, no meio do silêncio, algo sutil acontece: a esperança deixa de ser
apenas desejo e se torna, finalmente, possibilidade.
E é nesse ponto que a
psicoterapia encontra seu papel mais profundo.
Ela
oferece um espaço seguro para atravessar o vazio e a solidão sem se perder nas
invenções que criamos sobre o outro. Com ajuda, aprendemos a distinguir o que é
real do que é projeção, a reconhecer o amor com mais clareza e a transformar a
ausência em terreno de esperança e reconstrução.
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Edição Portuguese

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