Como superar os medos
da depressão
Publicado
em 27/08/26
Só naufraga quem perde a liberdade de responder às valiosas possibilidades que a realidade sempre oferece
Lembro-me
muito bem de uma das frases de Antonio em nossa primeira consulta:
"Cheguei a pensar que morrer é o fácil e viver, o difícil". Ele
estava na escuridão mais profunda de sua depressão.
Ele
acabara de falir em seu pequeno comércio e tentava se erguer financeiramente,
sem um projeto definido, quando os velhos fantasmas de seus medos retornaram à
sua vida. Medo de relacionar-se com outras pessoas, medo de eventos
imprevisíveis, medo do azar. Medos que o levaram à raiva e ao sofrimento.
"Não
é justo, não é justo", dizia a si mesmo, sentindo-se dolorosamente fraco.
"Há
quem fale da fome ou da sede sem conhecê-las de verdade", disse ele,
"e o mesmo acontece com quem fala que compreende o sofrimento."
"É
verdade", respondi, "mas existem pacientes terminais que morreram com
grande dignidade, dando pleno significado aos seus últimos dias; portanto, não
posso deixar de admitir que as pessoas que enfrentam seu destino sempre têm a
possibilidade de alcançar algo através do sofrimento."
"Bem,
não estou doente de morte, mas bem que eu poderia me encaixar na figura de um
náufrago", disse ele, pensativo.
"Não,
eu não concordo", disse-lhe, "porque você pode se ver como o capitão
de seu navio no meio de uma forte tempestade, numa situação em que você pode
usar todas as suas habilidades para avançar, mudar o curso, retornar ao porto
ou se aproximar da costa em busca de proteção."
Recomeço
Só
naufraga quem perde a liberdade de responder às valiosas possibilidades que a
realidade sempre oferece, ainda que interrompendo planos ou alcançando-os a
longo prazo, mesmo que isso envolva dor, carências e mil contratempos.
Após
várias sessões...
Antonio
decidiu aceitar um emprego modesto, ajustar as despesas da família, vender a
casa atual e comprar uma casa menor, entre outras mudanças. Sempre com o apoio
incondicional de toda a sua família e a confiança em um futuro melhor.
Ele
era novamente o capitão de seu navio e não um náufrago.
Era
também a hora de enfrentar e superar seus medos.
Na
infância, Antonio sofreu maus-tratos e deficiências afetivas, pelas quais se
sentia emocionalmente à beira do abismo. Enquanto crescia, para evitar
punições, ele mentiu, buscou fugas e tornou-se agressivo e desconfiado. Muitas
vezes ele ouviu que seu destino era fracassar, pois era desajeitado e inseguro,
sendo, portanto, objeto de críticas e ridicularização.
Mas,
no presente, nada disso já correspondia à sua verdade como pessoa: ele era um
bom marido, um bom pai, um bom trabalhador. Ele tinha as virtudes necessárias
para alcançar a maturidade e ser feliz.
Desordem
interior
Como
em muitas pessoas, sua dimensão interior era cheia de desordens e complexos,
devido às experiências traumáticas de seu passado, às quais ele acrescentara
seus próprios erros pessoais.
Portanto,
era particularmente necessário para ele identificar as emoções ligadas ao seu
"eu infantil", que ele inconscientemente projetava no seu "eu
adulto", com sentimentos e reações erradas, o que o fazia se sentir mal.
Era
uma questão de conseguir, nesse caminho, modificações não apenas no modo de
lidar com as emoções ou manifestações negativas de seu comportamento, mas
profundas mudanças na maneira de se relacionar consigo mesmo, para consolidar
seus relacionamentos com os outros a partir daí.
Um
exemplo:
"Não procurarei desculpas ou
justificativas falsas, mesmo quando eu cometer erros, pequenos ou
grandes."
Por
quê?
"Porque se, como todo ser
humano, eu erro, sempre terei a oportunidade de corrigir, pedir desculpas ou
perdão."
Para
quê?
"Pois só assim serei
autêntico e repousarei em mim mesmo sem sentir medo."
Aqui
estão alguns aspectos básicos de sua terapia sobre a abordagem que adotamos
para os eventos difíceis de sua vida:
Antonio
entendeu que o sofrimento faz parte da vida e que a dor que causa mais dano é
aquela que não é aceita. Portanto, é melhor aprender a nadar em sua realidade,
antes que a água te cubra completamente.

Edição Portuguese

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