Estilo de Vida

O que é a “hipoteca social” de que falou João Paulo II?

25/07/26

Em 1979, João Paulo II usou esse termo para explicar que ninguém está isento ou incapaz de "pagar" sua hipoteca social, já que todos podemos e devemos enriquecer nossa sociedade.

O ensinamento da "hipoteca social" faz parte da Doutrina Social da Igreja. Foi o Papa São João Paulo II quem cunhou o termo em 1979, por ocasião da Terceira Conferência Geral dos Bispos da América Latina e do Caribe, realizada em Puebla, México. O uso desse termo secular, originalmente empregado nos campos da economia e das finanças, chamou a atenção; mas logo foi adotado para elucidar o compromisso que todos temos de colaborar na construção da sociedade cristã de acordo com nossas próprias capacidades.

Propriedade privada

Inicialmente, a "hipoteca social" aplicava-se à propriedade privada. A Doutrina Social da Igreja sempre ensinou que ela é lícita quando adquirida e administrada moralmente, pois é necessária para a autonomia.

“A propriedade privada é um elemento essencial de uma política econômica genuinamente social e democrática e é garantia de uma ordem social justa. (...) A tradição cristã nunca aceitou o direito à propriedade privada como absoluto e intocável: ‘Pelo contrário, sempre o entendeu no contexto mais amplo do direito comum de todos ao uso dos bens de toda a criação: o direito à propriedade privada subordinado ao direito ao uso comum, à destinação universal dos bens’” ( Compêndio da Doutrina Social da Igreja -CDSI-, n.º 176-177 ).

É certamente positivo que todos construam seu patrimônio pessoal ou familiar honestamente; mas isso não basta, pois fazemos parte de uma sociedade. É necessário também que esses ativos tragam benefícios sociais, principalmente para aqueles com menos oportunidades.

Não se trata de vender tudo e distribuir entre os pobres, mas de ajudar no combate às múltiplas formas de pobreza, promovendo ou gerindo melhores condições de desenvolvimento com justiça e solidariedade; para além, claro, da caridade direta e concreta à qual todos somos chamados a combater a pobreza que fere a dignidade humana.

O que é uma hipoteca em termos de economia? 

Em economia, uma hipoteca é uma garantia oferecida para assegurar o cumprimento de uma obrigação contratual. Por exemplo, para garantir que pagarei o empréstimo que contraí junto ao banco, ofereço a hipoteca do meu imóvel em favor do banco. Se eu deixar de efetuar os pagamentos mensais, o banco poderá tomar posse do meu imóvel até o valor da dívida. E para evitar a minha evasão, a hipoteca do meu imóvel é registrada no órgão público responsável pelo registro de imóveis. Assim que eu quitar o empréstimo, a hipoteca é cancelada e então posso vender o imóvel.

Então, como podemos entender a hipoteca social?

A hipoteca social é a garantia de que, em consciência moral, todos devemos à sociedade os dons que a Divina Providência nos concedeu. Essa hipoteca aplica-se não apenas a bens móveis e imóveis, mas também a todos os bens que possuímos: educação, família, tempo, cultura, talentos, experiência e assim por diante.

Nesse sentido, ninguém está isento ou incapaz de 'pagar' sua hipoteca social, visto que todos podemos e devemos enriquecer nossa sociedade no espírito do bem comum cristão.

E como é que se paga essa "hipoteca social" de que falou João Paulo II?

1. Dedique tempo para ouvir a pessoa que enfrenta um problema e ofereça-lhe conselhos que sejam condizentes com a sua dignidade como filho de Deus. 

2. Participar em sindicatos, associações de bairro, associações de estudantes ou de pais e professores, ONGs, Ministério Social, etc. 

3. Ensine aqueles que não sabem: habilidades de leitura e escrita, um novo idioma, aulas particulares para alunos com dificuldades, compartilhamento de conhecimento e experiência em sua profissão (carpintaria, encanamento, alvenaria, etc.), instrução sobre as oportunidades das redes sociais e da IA.

4. Em caso de desastre natural (terremoto, furacão, etc.), participe dos esforços de resgate ou auxilie as equipes de resgate; demonstre solidariedade com as vítimas, abrindo generosamente sua casa para aqueles que a perderam e compartilhando suas refeições com eles. Se o desastre ocorreu em um local distante, seja generoso com seu apoio financeiro ou doe alimentos em bom estado para instituições que garantem uma gestão eficaz de crises, como a Cáritas Diocesana, Ajuda à Igreja que Sofre, etc.

5. Algum familiar ou vizinho ficou doente? Ofereça-se para levá-lo ao hospital, comprar os remédios, levar os filhos à escola e preparar uma alimentação adequada. 

6. Financie, de acordo com seus recursos, projetos e missões que ajudem a dignificar o próximo, começando com missões de evangelização católica e continuando com todo tipo de trabalho que esteja de acordo com sua fé e valores (bolsas de estudo, atividades de busca por pessoas desaparecidas, ajuda a gestantes para que não façam abortos, doações para orfanatos e abrigos para migrantes), etc. 

7. Se você é um profissional, ofereça seus serviços a um preço acessível para pessoas com recursos limitados; ou, se você é dono de um negócio, ofereça um desconto. O importante é que elas recebam seus serviços ou produtos com a qualidade que a caridade cristã implica.

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