Leão XIV

Uma Igreja de Muitas Línguas e Muitas Nações: As Ilhas Canárias na Encruzilhada da Tragédia Humana [reportagem]

14/06/26

Fuerteventura, Tenerife, Lanzarote… Longe dos estereótipos turísticos associados a esses nomes, as Ilhas Canárias revelam uma realidade muito mais complexa: elas se encontram na encruzilhada das rotas migratórias do Atlântico. Ao chegar ao arquipélago, Leão XIV quis honrar o compromisso da Igreja em servir às pessoas que haviam deixado suas terras natais em busca de um futuro melhor.

"Eu o seguia online e queria vê-lo. Ele é tão gentil, tão bom!", diz Aliu, de 16 anos, da Gâmbia, que chegou às Ilhas Canárias há um mês. A visita do Papa foi uma surpresa quase celestial para ele.

“Para ele, não importa se somos brancos ou negros, cristãos ou muçulmanos… Ele quer nos ajudar”, explica o menino, que está procurando emprego para sustentar sua família. 

A Igreja e a realidade migratória do arquipélago

A última etapa da viagem de Leão XIV pela Espanha o expôs à realidade da Igreja em um arquipélago de mais de dois milhões de habitantes, que há anos se dedica ativamente a acolher visitantes estrangeiros. Como em toda a Espanha, a presença de imigrantes latino-americanos era claramente visível – bandeiras de Cuba, Venezuela e Colômbia tremulavam durante as cerimônias papais em Gran Canaria e Tenerife. De forma um tanto surpreendente, bandeiras chinesas também apareceram nas arquibancadas do estádio em Las Palmas, onde o Papa celebrou a missa na noite de quinta-feira.

Um quarto dos habitantes

Nos últimos anos, porém, as Ilhas Canárias foram profundamente transformadas por outra realidade: o fluxo maciço de migrantes da África. As autoridades ficaram particularmente surpresas em 2020, quando milhares de marroquinos, senegaleses e gambianos, que sobreviveram a perigosas travessias oceânicas, começaram a chegar ao arquipélago. A distância da costa marroquina até o ponto mais próximo do território canário é de apenas cerca de 100 quilômetros – e esse ponto é a Espanha, e, portanto, a fronteira da União Europeia. Juntos, os migrantes de todas as nacionalidades constituem agora quase um quarto da população do arquipélago.

"Viemos para mudar nossas vidas, para ajudar as famílias que deixamos para trás. Tivemos que superar muitos medos e atravessar o oceano, na esperança de que um dia pudéssemos contribuir para o desenvolvimento de nossos países", diz Gorgissa, um senegalês de cerca de cinquenta anos que está hospedado no centro Las Raíces, visitado pelo Papa na manhã de sexta-feira.

A escolha do francês por Leão XIV surpreendeu e emocionou os migrantes francófonos; eles responderam ao "bonjour" do papa com um coro de saudações.

"Esperamos que a sua chegada nos devolva a dignidade. Não pedimos privilégios, apenas um trabalho digno", enfatiza Gorgissa.

"Uma grande fonte de conforto"

Em parceria com o governo e as autoridades locais, a Igreja auxilia mais de 22.000 migrantes. Ela também financia projetos nos países de origem dos migrantes para incentivar os jovens a permanecerem e investirem em seus próprios países. A Cáritas das Canárias atualmente administra 14 projetos de microempreendedorismo em Marrocos, Mali, Mauritânia e Sudão.

"Esta visita do Papa é um sonho que se tornou realidade para mim! Todos nós esperamos que ela melhore a nossa situação – a nossa, que veio de longe", diz Mary, da Gâmbia, que vive nas ilhas há 26 anos e agora trabalha como empregada doméstica. Ela vivenciou o encontro com o Papa em San Cristóbal de La Laguna mais em espanhol do que em inglês – idioma que se tornou sua língua do dia a dia.

Anna Maria, residente de Las Palmas e fervorosa devota de Nossa Senhora de Pino, padroeira do arquipélago desde o século XV, dedica-se há anos a prestar assistência jurídica a migrantes que chegam por mar e que muitas vezes são abandonados por contrabandistas impiedosos.

“Hoje a situação está mais calma e a visita do Papa é uma grande fonte de conforto para toda a comunidade das Ilhas Canárias”, afirma o advogado.

Wolof e francês durante a missa papal

Durante a missa celebrada por Leão XIV em 11 de junho no estádio de Gran Canaria, a oração dos fiéis, lida em wolof, língua falada no Senegal, Gâmbia e Mauritânia, foi particularmente comovente. A intenção foi dedicada "aos falecidos e refugiados que perderam a vida nas águas do Atlântico, para que sejam acolhidos nos braços do Pai e para que as famílias que choram a sua perda sejam consoladas".

Outra intenção foi lida em francês: "pelos pobres e necessitados, para que encontrem consolo na infinita bondade do Senhor e para que sua dignidade humana seja fortalecida pela ajuda fraterna". 

As Ilhas Canárias como símbolo de fraternidade concreta

Ao receberem a primeira visita papal ao arquipélago, os habitantes das Canárias apresentaram-se como embaixadores de uma fraternidade vivida concretamente e no dia a dia. Desta forma, honraram também a memória do Papa Francisco, que tanto desejara visitar o arquipélago.

“Penso nos vossos corações, feridos por tantas dificuldades, mas também consolados pelo amor recebido de outros corações – abertos, generosos e misericordiosos”, disse Leão XIV aos migrantes.

O Papa expressou sua alegria pelo fato de os habitantes das Ilhas Canárias estarem seguindo o caminho trilhado por Cristo, que em sua Paixão também foi "consolado por pessoas compassivas que se aproximaram para aliviar seu sofrimento".

Edição Polônia

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