Como superar uma fase depressiva de uma maneira
cristã?
02/06/26
A
depressão é frequentemente acompanhada por uma noite de fé. Portanto, pode
resultar num verdadeiro sofrimento espiritual para a pessoa doente. Aqui estão
algumas dicas para superá-la sem perder a fé.
A depressão é uma doença e o cristão não está
isento de adoecer. A fé salva, mas não cura; nem sempre, em qualquer caso. A fé
não é um remédio, muito menos uma panacéia ou um antídoto mágico.
Por outro lado, oferece a quem concorda em abrir a
possibilidade de viver esse sofrimento de maneira diferente e com um caminho de
esperança, o que é muito importante, pois a depressão mina a esperança. Temos
os conselhos do padre Jean-François Catalan, psicólogo e jesuíta, para superar
essa difícil adversidade.
É normal duvidar da fé e até abandoná-la quando
você sofre de depressão?
Muitos grandes santos passaram por densas trevas,
essas “noites escuras”, como São João da Cruz as chamava. Sofreram, às vezes,
até o desespero, o desânimo, a tristeza, a angústia, o tédio de viver ... São
Afonso de Ligório passou a sua vida nas trevas enquanto consolava às almas
("Sofro muitíssimo", dizia ele às vezes), como o padre de Ars.
Para Santa Teresa do Menino Jesus, no final de sua
vida, "um muro a separou do Céu". Ela já não sabia se Deus e o Céu
existiam. No entanto, ela viveu esse momento crítico no amor. Essa
"depressão" não impediu que os santos se sustentassem à noite, graças
a um ato de Fé. E eles foram santificados pela mesma Fé, à noite.
A depressão pode ser experimentada numa atitude de
abandono à Deus. Nesse momento, o significado da doença muda; uma rachadura é
aberta na parede, embora o sofrimento e a solidão não sejam suprimidos. É o
fruto do combate constante. É também uma graça recebida.
Existem dois movimentos. Por um lado, você pode
fazer o que pode, mesmo que seja mínimo e pareça ineficaz, mas, concordando em
tomar os remédios, continuar com uma psicoterapia, se for necessário, tentando
renovar os contatos de amizade - o que às vezes pode ser muito difícil, porque
os amigos foram embora, os parentes estão muitas vezes desanimados ... -. Por
outro lado, temos essa graça de Deus que nos ajuda a não nos desesperar.
Você evoca os santos, mas para as pessoas comuns?
É verdade que o exemplo dos santos pode parecer
distante. Muitas vezes vivemos mais na escuridão do que durante a noite ... Mas
experimentamos, como os santos, que toda a vida cristã é, de uma maneira ou de
outra, uma luta. Uma luta contra o desânimo, contra as formas de se retirar
para si mesmo, do egoísmo, da desesperança ... Essa luta é diária e afeta à
todos.
Cada um luta contra si mesmo, contra forças
destrutivas que se opõem a uma vida verdadeira, sejam estas forças de origem
físico (doenças, infecções, vírus, câncer ...), psicológicas (todas as formas
de processos neuróticos, conflitos pessoais, várias frustrações ... ) ou forças
de origem espiritual.
É preciso lembrar que, embora os estados
depressivos possam ter causas físicas ou psicológicas, eles também podem ter
causas espirituais. Na alma humana há tentação, há resistência, há pecado.
Não podemos permanecer calados diante da ação do
Adversário, Satanás, que tenta "colocar pedras no nosso caminho" para
impedir que progridamos em direção à Deus. Ele pode brincar e tirar proveito do
estado de desamparo, de desolação, de depressão. O objetivo dele é desencorajar
e desesperar.
A depressão pode ser um pecado?
De maneira nenhuma. É uma doença! Mas há uma certa
forma de complacência na depressão que pode estar relacionada à resignação, à
falta de fé, ao desespero, que pode ser da ordem do pecado. Os Pais do deserto
chamaram essa demissão de "acedia". Esse enfraquecimento espiritual
do qual você é cúmplice, esse abatimento consensual, levam a uma profunda
tristeza que pode provocar uma situação depressiva.
No entanto, com a devida proporcionalidade, aquela
pessoa que sofre de depressão pode viver sua doença como uma forma de
humildade. Ela está no fundo do abismo, perdeu suas referências, sente
dolorosamente sua pobreza fundamental, sabe que não é todo-poderosa e que não
pode se salvar...
No entanto, mesmo nas profundezas da aflição, ela
continua sendo livre. Livre para viver sua depressão desde a humildade ... ou
desde o ultraje! Toda vida espiritual supõe uma conversão, mas essa conversão,
pelo menos no começo, nada mais é do que uma conversão de perspectiva, esse movimento
pelo qual olhamos para Deus, nos voltamos para Ele. E essa volta é a
consequência de uma escolha e de uma luta. A pessoa deprimida não está isenta
disso.
Esta doença pode ser um caminho para a santidade?
Certamente. Já mencionamos alguns exemplos de
santos. Também estão todos os doentes, ocultos, que nunca serão canonizados,
mas que viveram sua doença em santidade.
Acho estas palavras do padre Louis Beirnaert,
psicanalista religioso, muito apropriadas: “Numa vida maltratada e miserável, a
respiração secreta das virtudes teológicas (Fé, Esperança, Caridade) se
manifestará.
Quanto aos neuróticos, sem juízo e às vezes
obcecados, conhecemos alguns deles cuja simples fidelidade de segurar a mão
divina à noite que eles não sentem é tão radiante quanto insuportável como a
magnanimidade de um Vincent de Paul!”. O que ele diz sobre os neuróticos aqui
se aplica, é claro, à todos os deprimidos.
Foi isso que Cristo viveu no Getsêmani?
Sim, de certa forma. Jesus viveu intensamente o
desânimo, a angústia, o abandono, a tristeza de todo o ser: "A minha alma
sente uma tristeza da morte" (Mt 26,38).
São situações que a pessoa deprimida conhece. Ele até implorou ao Pai que
retirasse "este cálice" (Mt 26,39).
Que luta, que agonia! Até essa "conversão", essa recuperação da
aceitação: "Mas não faça a minha vontade, mas a sua seja feita" (Mt 26,39).
O desamparo absoluto culmina em seu "Meu Deus,
por que você me abandonou?". Mas o Filho diz, no entanto, "Meu Deus
...". É o último paradoxo da Paixão: Jesus tem fé em seu pai no exato
momento em que seu pai parece abandoná-lo. O ato de pura fé, lançado à noite!
Às vezes é assim que devemos viver. Com a sua graça. Suplicando: "Senhor
Jesus, venha em nosso auxílio!"
Entrevista
realizada por Luc Adrian

Edição Portuguese

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