O remédio que estamos deixando de dar para as crianças
06/06/26
Imagine que uma criança precise de um
remédio muito importante para seu crescimento, e ele precisa ser administrado
com uma frequência importante, mas, com a correria do dia a dia estamos
deixando de dar esse remédio para as crianças.
Quando andamos pelas ruas das nossas cidades, um
fenômeno moderno chama a atenção: o silêncio nos quintais e nas calçadas. As
crianças desapareceram do espaço público. Estão trancadas em apartamentos ou
confinadas em salas de aula, muitas vezes com os olhos fixos na tela brilhante
de um celular. Do ponto de vista da saúde física e mental, estamos cometendo um
erro grave. Brincar não é apenas um passatempo para distrair os mais novos; é
uma necessidade biológica tão vital quanto comer bem ou dormir o número de
horas adequado.
Existe até o Dia Mundial do Brincar, em 28 de
maio, e diversas cidades têm leis ligadas à dqata para explicar
a importância da brincadeira. Como existe conscientização sobre a vacina, sobre
alimentação ou proteção, também existe sobre a brincadeira que é, para o
desenvolvimento, uma coisa muito séria.
Saúde
das crianças
Do ponto de vista neurológico, a infância é um
período de conexões cerebrais em ritmo acelerado. É nessa fase que as bases do
comportamento adulto estão sendo moldadas. Como bem aponta a pedagogia moderna
e os braços de assistência social, o brincar livre funciona como o
verdadeiro combustível do cérebro na primeira infância.
Quando uma criança corre, inventa uma regra ou
interage com outra, ela está ativando as chamadas funções executivas. Estamos
falando da capacidade de reter e usar informações a curto prazo; aprender a
lidar com a frustração de perder ou o limite do próprio corpo; entender que
cada ação na brincadeira gera uma consequência direta.
Além disso, o lúdico fortalece a autoestima,
desenvolve a empatia e cria laços afetivos que servem de armadura psicológica
para o resto da vida.
Epidemia
das telas
Veja bem, a substituição do tempo livre pelo uso
precoce, exagerado e desregrado de telas tem cobrado um preço alto. A medicina
e a observação de campo já comprovam o abismo que separa a saúde de quem brinca
livremente daquela de quem passa o dia confinado. O isolamento provocado
pelo ambiente digital adoece. A brincadeira real, por outro lado, conecta as
pessoas e estimula o corpo de forma saudável.
Muitos pais me dizem: "Queria que meu filho brincasse na rua, mas não tenho
coragem". E eles têm razão. Lutar pelo direito de brincar é, no
fundo, lutar contra a desigualdade social. Faltam políticas públicas de
planejamento urbano que valorizem o cidadão e o contato com a
natureza.
Uma cidade saudável precisa de praças e parques bem
iluminados e seguros, onde as calçadas sejam acessíveis. Pesquisas médicas
consistentes mostram que o contato direto da criança com a terra, com as
plantas e com a água é um santo remédio para reduzir os níveis de estresse, a
ansiedade e as taxas de obesidade. Quando a comunidade se organiza — criando
"ruas do brincar" ou revitalizando terrenos públicos —, ela está
fazendo medicina preventiva.
Olha,
não são necessários brinquedos caros ou eletrônicos de última geração para
estimular um filho. O que a criança precisa é de presença e tempo de qualidade.
Um banho com potinhos plásticos reutilizáveis, uma cabana montada com lençóis e
cadeiras no meio da sala, ou um pedaço de corda para pular já são mais do que
suficientes para ativar a criatividade e o afeto.
Os pais precisam reservar ao menos 30 minutos do
seu dia para sentar no chão e brincar com os filhos. É nesse momento
que os adultos conseguem observar o grau de desenvolvimento da criança, como
ela lida com regras e se há a necessidade de um acompanhamento médico ou
especializado para o seu funcionamento neurológico.

Edição Portuguese

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