Um monstro vem me ver: ele se chama ANSIEDADE
06/06/26
Há um monstro que vem me ver e não tem a
intenção de me matar, mas quase me impede de viver
Há um monstro que vem me ver e não tem a
intenção de me matar, mas quase me impede de viver. Um monstro que muda de
forma e de posição no meu corpo. Umas vezes parece me fazer engasgar,
outras vezes acelera o meu sistema nervoso, e outras me paralisa. É um
monstro muito famoso, padecido e explicado. Ele se chama ansiedade.
O estado de alerta tem sido essencial para a nossa
sobrevivência como espécie. No entanto, quando este estado de atenção, tensão e
alerta se torna crônico, o resultado é uma PREOCUPAÇÃO constante,
que habitualmente também se generaliza em tudo e em todos.
Essa preocupação nos faz ter consciência de tudo o
que nos rodeia, mas de uma forma amplificada e distorcida. Já não distinguimos
o que nos estressa daquilo que é simples. Tudo se amontoa em nossa mente e
funciona com plena capacidade. Não para nos ocuparmos, mas para nos
preocuparmos. É um monstro que nos domina porque não sabemos transformar
sua raiva em energia, só vira fraqueza.
De
onde vem a ansiedade?
Quando a ansiedade se torna crônica e se transforma
em um estado de preocupação perpétua, podemos falar do que se conhece em âmbito
clínico como Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG). Ela tem
que estar presente durante pelo menos 6 meses e apresentar três ou mais
sintomas, como agitação, irritabilidade, cansaço, dificuldade de
concentração ou ter a mente em branco, tensão muscular e problemas de sono.
A ansiedade generalizada compartilha muitos
sintomas com a depressão; ambos os transtornos apresentam um alto efeito
negativo. No entanto, a depressão se caracteriza mais pelo sentimento de
tristeza e a ansiedade por uma hiperatividade fisiológica contínua e uma
sensação de incerteza e falta de ar. Qualquer mudança na rotina diária é
percebida como um monstro ameaçador, pronto para atacar a nossa garganta.
O TAG não parece ter um forte componente genético,
mas parece ter um caráter crônico que se agrava com o estresse e
vai flutuando em intensidade ao longo da vida. Sua principal
característica definidora é a preocupação constante por aspectos da vida
cotidiana. Sua presença é evidente – nos casos em que está presente – em torno
dos 20 anos de idade, embora a sua comorbidade com outros sintomas ansiosos ou
depressivos possa dificultar o diagnóstico.
É muito mais frequente em mulheres, assim como a
maior parte dos transtornos emocionais na vida adulta. Por
sua vez, o transtorno se manifesta em um sistema triplo de resposta:
o cognitivo, o motor e o emocional.
Esse
monstro que conhecemos com perfeição
Muitas pessoas conhecem seus sintomas de cor, já
que este transtorno costuma aparecer em pessoas com uma alta
consciência sobre o que ocorre com elas, mesmo que não sejam capazes de
tratá-lo e de melhorar a sintomatologia. Além disso, costumam descrever
com perfeição como a ansiedade paralisa. A alexitimia não é uma característica
predominante nestes pacientes, muito pelo contrário.
Eles sabem muito sobre a ansiedade, mas este
transtorno parece não ter um tratamento suficientemente bem estabelecido e bem
sucedido, mesmo sendo muito frequente na população. O tratamento costuma
ser a terapia cognitivo-comportamental, como a de Dugas e Ladouceur
(atualizada em 2007); a de Borkovec e Pinkus (2002) ou a de Brown e Barlow
(1993).
Um
conto sobre a ansiedade e o mundo em que vivemos
Embora muitos pacientes conheçam bem os seus
sintomas, a terapia vai ajudá-los a agir como cientistas diante dos seus
próprios sintomas, como “gurus” na busca de sua própria regulação emocional. O psicólogo/a deverá
colocar ao seu alcance as melhores técnicas para isso.
Uma boa ideia é que a pessoa com ansiedade crônica
se faça perguntas reais acerca da sua existência e dos seus valores de
vida. Às vezes é preciso fazer perguntas a este mundo, que parece criar e
alimentar este monstro. Às vezes vale a pena nos convertermos em um pequeno
relato para ver um sentido naquilo que percebemos como caos.
O
que você deve ao mundo? O que esse monstro exige de você?
Lembre-se da sua infância. Lembre-se do quanto você
era feliz porque pulava, corria e desfrutava sem ter que dar explicações a
ninguém. Lembre-se de você saltando, se sujando e se despenteando, embriagado/a
pela intensidade do momento. Não havia tempo para a
preocupação, porque não existia o conceito de tempo mais além do que você
estava vivendo. Mas logo chegaram as demandas e, com elas, a
sensação de que você devia algo ao mundo.
Você começou a sentir que era mais importante
ocultar aquilo que não ficaria bem aos olhos dos outros do que viver a
verdadeira realidade ao seu redor. As demandas começaram a substituir os
mergulhos. Os discursos que glorificam as crianças “com altas capacidades”
pareciam ensurdecer os gritos que antes eram de alegria e
espontaneidade. Ninguém soube lhe dizer que você nunca poderia assumir o
controle de tudo.
Ninguém lhe ensinou a continuar mantendo a chama da
sua infância acesa enquanto construía uma identidade com novas
responsabilidades. Ninguém soube explicar a diferença entre deveres e
direitos, entre eles o de ser feliz sem se sentir
culpado/a.
Neste momento, com este monstro te devorando cada
vez mais, é hora de começar a exigir mais dele e menos de você. Pergunte para
ele: o que eu devo a você,
mundo, para me enviar este monstro? Talvez com essa pergunta você e
muitas pessoas entendam que por mais que ele exija de nós, não podemos dar nada
para o mundo se não formos capazes de desfrutar o fato de estar vivendo nele.
Você não vai decepcionar ninguém, você também não
pediu permissão para estar aqui. Esqueça tantas demandas e volte a reivindicar
os seus direitos. Volte a se sujar, sem se preocupar se o mundo vai ficar
chateado por isso. Cumprimente esse monstro e, mesmo se ele parecer vir com
força às vezes, mostre a ele com as suas ações que a única coisa que você tem
para ele é aquilo que você não é capaz de dar para si mesmo/a.

Edição Portuguese

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