O que contém a encíclica “Magnifica humanitas” de Leão XIV?
26/05/26
Com a publicação da Magnifica humanitas,
a primeira encíclica de Leão XIV, a Aleteia apresenta um resumo dos principais
pontos do documento.
"Magnífica Humanidade" (Magnifica
Humanitas) – a primeira encíclica de Leão XIV – foi promulgada em 25 de maio de
2026. Este texto denso e didático, aguardado durante meses, dirige-se a todos
os homens e mulheres, destacando os perigos inerentes à "era da Inteligência
Artificial " e propondo um roteiro para preservar nossa
humanidade diante do tsunami digital.
Com seus cinco capítulos, 245 parágrafos e mais de
45.000 palavras, Magnifica
Humanitas é uma das encíclicas mais volumosas dos
papas do século passado. Assinada em 15 de maio — o 135º aniversário
de Rerum Novarum , encíclica
de Leão XIII em defesa da humanidade contra as máquinas industriais —, o
documento de Leão XIV busca adaptar os princípios fundamentais da Doutrina
Social da Igreja aos desafios atuais.
O líder da Igreja Católica exorta as pessoas a não
demonizarem nem idolatrarem as ferramentas digitais. Ele alerta que a IA, que
não é anjo nem demônio, "não é neutra" e denuncia a complexa rede de
seus poderosos criadores, os monopólios concentrados nas mãos de poucos e as "intenções
obscuras" que podem estar ocultas nos algoritmos. Ele defende marcos
legais e educação em alfabetização digital e oferece o que poderia servir como
um manual para o "uso adequado da IA".
Por
que esta encíclica?
O Papa explica que está seguindo os passos de Leão
XIII, que encorajou a Igreja a refletir sobre as "novidades" da
sociedade de seu tempo e iniciou o que mais tarde se tornaria a " Doutrina Social "
da Igreja. Seguindo seu exemplo, ele propõe confrontar um novo "ponto de
virada histórico": o da sociedade contemporânea, onde "o poder e a
onipresença das tecnologias emergentes estão entrelaçados no tecido da vida
cotidiana, moldam os processos de tomada de decisão e influenciam profundamente
o imaginário coletivo", o que ele chama de "a era da Inteligência
Artificial".
Para o Papa, esta "fase de rápida
transição", cujos eventos "ainda não podem ser totalmente
previstos", levanta "questões que já não podem ser evitadas",
particularmente no que diz respeito à "face sem precedentes" do
"poder tecnológico". Assim, representa um desafio "a partir das
categorias da Doutrina Social da Igreja Católica e exige o seu
aprofundamento".
Portanto, Leão XIV explica que a Igreja "não
pode ser considerada separada da dinâmica que molda a sociedade", sem,
contudo, pretender "assumir as funções que pertencem ao Estado" ou
propor um "repertório de soluções técnicas" ou um "modelo
econômico ou político de oposição".
Embora negue qualquer "interferência",
ele insiste que a Doutrina Social da Igreja também representa um "exame
reflexivo para a Igreja". Ele defende uma "cultura de transparência,
responsabilidade e avaliação", seguindo o Sínodo sobre a Sinodalidade, o
importante processo iniciado por Francisco para alcançar uma Igreja menos
clerical e mais inclusiva e participativa. "Viver a justiça na Igreja
significa purificar as relações e estruturas eclesiais das distorções que geram
desigualdade e opacidade", insiste, e apela para que se ouçam as vítimas
de "abuso espiritual, econômico, institucional, sexual, de poder e de
consciência".
Os
perigos do nosso tempo
1Dominação tecnológica e ideológica
Na Magnifica Humanitas, Leão XIV examina os males da
sociedade e oferece um diagnóstico lúcido. Ele se preocupa particularmente com
a dinâmica de poder que se desenvolve dentro dela. Para ilustrar seu ponto de
vista, o Papa usa frequentemente a imagem da Torre de Babel do Gênesis. Esse
projeto bíblico é "uma obra concebida sem referência a Deus, sustentada
por uma uniformidade que elimina a diversidade e, em vez da comunhão, opta pela
homogeneização", explica o pontífice na introdução.
"Portanto, evitemos a 'síndrome de
Babel'", exortou ele, afirmando que ela leva à "idolatria do lucro
que sacrifica os mais fracos, à uniformidade que apaga as diferenças, à
pretensão de uma única linguagem [...] capaz de traduzir tudo [...] em dados e
desempenho". "Uma tentação antiga e sempre renovada", advertiu o
267º Papa.
Ecoando uma reflexão já desenvolvida por seu
predecessor, o Papa Francisco, na Laudato si' ,
Leão XIV expressou sua preocupação com "a crescente consolidação de um
paradigma tecnocrático". Essa lógica de "eficiência, controle e
lucro" acaba governando "as decisões pessoais, sociais e econômicas
por si só", observou ele. A tecnologia não é mais "um mero
instrumento", mas tende a se tornar "um critério [...] que reduz a
criação a um objeto de exploração e as pessoas a meras engrenagens de um
sistema que precisa ser cada vez mais eficiente".
Seguindo essa lógica, o transhumanismo e o
pós-humanismo são temas que preocupam o papa americano. Esses movimentos, que
propõem "uma visão futurista do 'humano aprimorado' ou do 'híbrido
humano-máquina'", "colonizam o imaginário coletivo". Embora suas
hipóteses sejam "em grande parte especulativas", sua influência
modifica "o imaginário coletivo" e, portanto, molda decisões sociais,
econômicas e políticas, observa o bispo de Roma.
2Uma nova situação internacional
Na sociedade moderna, já não são os Estados que
governam o mundo, mas sim "atores privados, muitas vezes transnacionais,
com recursos e capacidade de intervenção superiores aos de muitos
governos", explica o Papa. Esta nova governação global é "ainda mais
difícil de compreender, regular e orientar para o bem comum", observa ele.
Ele denuncia, em particular, a aplicação de uma
lógica "particularmente insidiosa" que sugere que "cada pessoa
deve merecer ou justificar o seu próprio valor". Nessa perspectiva, o
indivíduo acaba sendo considerado um "recurso a ser otimizado". Estendendo
essa reflexão à questão do desemprego, Leão XIV enfatiza que "a busca por
maiores lucros não pode justificar decisões que sacrificam sistematicamente o
emprego". Assim, ele reitera que "o ser humano é um fim em si mesmo,
e não um meio para um fim".
Por trás do mundo nebuloso dos algoritmos, o Papa
expressa sua preocupação com a coleta de dados. Ele a considera uma nova forma
de colonialismo que "se apropria de dados, transformando vidas pessoais em
informações exploráveis", denuncia. Leão XIV teme que "novos elementos
de terras raras" sejam submetidos a uma "lógica extrativista"
que, nesta ocasião, afeta "prontuários médicos, perfis epidemiológicos,
mapas genéticos e dados demográficos".
Controlar esses dados oferece a possibilidade de
"moldar necessidades e mercados", explica o Papa. Assim,
"transformar o conhecimento compartilhado em um bem comum, e não em uma
ferramenta de dominação", é descrito pelo pontífice como "um dos
desafios morais mais urgentes do nosso tempo".
3Escravidão, guerra e manipulação.
Leão XIV também
aproveitou a oportunidade para denunciar as "novas formas de
escravidão" criadas pelas infraestruturas digitais. A luta contra estas
constitui um "teste decisivo", escreveu ele. "Sem esta reflexão
ética e humanizadora, o crescente poder dos sistemas digitais corre o risco de
nos conduzir a novas atrocidades, não menos vergonhosas do que as do
passado", alertou o pontífice.
O Papa também apresentou um pedido de desculpas em
nome da Igreja em relação à escravidão, reconhecendo que "não podemos
negar ou minimizar a demora com que a Igreja e a sociedade condenaram o flagelo
da escravidão" e pedindo "sinceramente perdão".
Além da escravidão moderna, o que preocupa Leão XIV
é o papel das novas tecnologias na normalização da guerra. Por isso, ele
denuncia o estabelecimento de uma "cultura do poder" que "altera
relações e comportamentos" e leva à busca de um "poder militar cada
vez maior". Seu resultado, observa o pontífice americano, é "uma
multipolaridade desordenada e conflituosa, onde prevalece a desconfiança no
outro".
Ele também lamenta o desenvolvimento implacável de
armas com inteligência artificial. Exige que o uso de IA nas forças armadas
esteja sujeito às mais rigorosas restrições éticas e afirma: "É
inaceitável confiar decisões letais a sistemas artificiais". Além disso,
declara: "Nenhum algoritmo pode tornar a guerra moralmente
aceitável".
Ao longo do texto, Leão XIV defende a
"promoção de uma ecologia da comunicação" na era da IA. "As
ferramentas que poderiam fomentar o debate e a participação são frequentemente
usadas para construir narrativas distorcidas", observa ele. Portanto,
exige responsabilidade daqueles que "controlam as plataformas digitais e
os meios de comunicação", cuja capacidade de influência é
"extraordinária".
Os
apelos da Igreja hoje
1Defendendo a dignidade humana
Contrariando qualquer visão utilitarista, o Papa
afirma que a dignidade da pessoa humana "não depende das suas capacidades,
riqueza ou posição social, nem das decisões certas ou erradas que toma, mas é
uma dádiva que as precede e as transcende". Assim, todo ser humano é
dotado de dignidade "simplesmente por existir, por ter sido desejado,
criado e amado por Deus", insiste o chefe da Igreja Católica. "Nenhum
pecado, nenhum fracasso, nenhuma humilhação, nenhuma exclusão pode diminuir o
profundo valor de uma vida humana", afirma Leão XIV.
"O que significa preservar a
humanidade?", pergunta o pontífice, denunciando o beco sem saída de uma
"visão anti-humana, segundo a qual a plenitude da vida consistiria em ter
mais, reduzir a fragilidade, eliminar o imprevisto, controlar tudo".
Do ponto de vista estatístico, o Papa defende
mudanças nos métodos de cálculo do PIB para incorporar dimensões que até agora
receberam pouca atenção, como "os efeitos das decisões legislativas e
regulamentares sobre a dignidade do trabalho, a prosperidade compartilhada, a
redução das desigualdades e a proteção do meio ambiente".
O documento também defende a aplicação dos
princípios de transparência, responsabilidade, inclusão e equidade à IA,
especialmente "quando dados e algoritmos influenciam a alocação de
crédito, a seleção de pessoal e o acesso a serviços ou oportunidades".
Na frente política, o Papa instou à correção dos
desequilíbrios causados pela concentração de riqueza e poder,
afirmando que "esses critérios não constituem um obstáculo à inovação, mas, na verdade, a tornam viável".
2Regulamentação da inteligência artificial
O Papa denuncia "os novos monopólios da
IA" e sublinha a necessidade de "proteger a capacidade das
comunidades de escolher e corrigir, sem relegar a sua intervenção a um mero
papel de supervisão, uma vez que as normas tenham sido estabelecidas noutras
áreas". Ele destaca a importância de "reconhecer o trabalho
invisível, muitas vezes explorado, que alimenta os modelos algorítmicos".
"A justiça social não é apenas um objetivo a ser protegido após a adoção
das tecnologias, mas um pré-requisito que deve ser implementado desde a sua
concepção", insiste.
Portanto, a regulamentação deve ser aplicada às
"novas formas de propriedade" que surgem da revolução tecnológica em
curso: "patentes, algoritmos, plataformas digitais, infraestruturas
tecnológicas, dados", especifica Leão XIV. O princípio da "subsidiariedade
digital" deve permitir que essas ferramentas sejam orientadas "para o
bem comum por meio da transparência, da responsabilidade e de formas genuínas
de participação", explica ele.
O Papa também nos exorta a "desarmar a
IA", ou seja, a desvinculá-la da lógica da competição armada, que já não é
apenas militar, mas também econômica e cognitiva. Portanto, ele nos encoraja a
"romper com essa equivalência entre poder tecnológico e o direito de
governar". O objetivo não é "renunciar à tecnologia", mas
"impedir que ela domine a humanidade".
Reconhecendo que "a inovação tecnológica pode
ser, de certa forma, uma forma humana de participação no ato divino da
criação", o Papa destaca que "os desenvolvedores têm, portanto, uma
responsabilidade ética e espiritual especial, porque cada escolha de design
expressa uma visão da humanidade".
3Cultivando a humanidade autêntica
"Devemos lembrar que os seres humanos não
prosperam apesar das
limitações, mas muitas vezes por
causa delas", explica Leão XIV. É ilusório e prejudicial
querer eliminar as limitações humanas, afirma ele, salientando que é quando os
seres humanos "vivenciam limitações — vulnerabilidade, dor, fracasso — que
podem reconhecer a sua própria dignidade e a dos outros como invioláveis".
No contexto atual, o desafio reside em
"avançar a tecnologia sem causar um retrocesso no coração". "A
humanidade, magnífica e ferida, não deve ser substituída nem superada",
adverte o sucessor de Pedro, enfatizando que a expressão "mais que
humano" — isto é, a ideia de autotranscendência — não deve se concentrar
na dimensão técnica, mas em uma dimensão de abertura espiritual. Os seres
humanos "são chamados a transcender a si mesmos: não a fugir da realidade
ou por desprezo das limitações, mas a florescer no amor".
“Não basta que a IA nos torne mais eficientes ou
mais conectados; ela deve servir para construir esta família humana universal”,
afirmou o Papa. Recordando a dimensão da Encarnação, essencial no Cristianismo,
o Papa concluiu sua encíclica com uma meditação sobre o Magnificat , o hino de louvor à
Virgem Maria, a quem o anjo anunciou que daria à luz o Filho de Deus.
"Na fidelidade humilde e cotidiana, a era da
IA também pode se tornar um caminho pelo qual o Espírito fomenta o
amadurecimento da civilização do amor em nossas vidas", afirma Leão XIV.
Ele destaca que "o Senhor continua a renovar todas as coisas e mantém
aberta, para cada época, a possibilidade de se tornar uma história de salvação
à luz da Encarnação".

Edição Espanhol


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