O desafio da conexão e do isolamento na
família
16/04/26
No cenário contemporâneo, onde as telas se tornaram extensões dos nossos
braços e as notificações ditam o ritmo do nosso pulsar, uma nova e silenciosa
crise se instala no seio das famílias brasileiras.
Durante o Congresso
Teológico Vida e Família, promovido pela Comissão Nacional da
Pastoral Familiar, o tema "Famílias Conectadas: desafios da vida
digital e afetiva" trouxe à tona uma reflexão urgente sobre como
os algoritmos estão redesenhando as nossas relações sociais e pastorais. A
palestra, que reuniu lideranças de diversas dioceses do país, lançou um alerta
sobre os "microcosmos digitais" que habitamos sem perceber.
A
crise da escuta
O grande vilão desta narrativa moderna não é a
tecnologia em si, mas o isolamento provocado pelas chamadas "bolhas de
informação". Valendo-se dos conceitos do
filósofo Byung-Chul Han, o debate expôs como a curadoria algorítmica
nos afasta sistematicamente de qualquer pensamento divergente, criando uma
perigosa sensação de que o mundo inteiro compartilha das nossas opiniões.
Segundo o Professor Everthon de Souza Oliveira,
da Sociedade Brasileira de Cientistas Católicos: "Essas bolhas da
informação são microcosmos digitais que cada um de nós faz parte. Não duvidem
que isso é algo que está enganando os jovens, não; isso está nos
enganando", alertou. Segundo a exposição, essa dinâmica gera uma "completa
crise da alteridade", onde o "outro" deixa de ser um
interlocutor para se tornar um estranho ou um inimigo.
A consequência direta para a vida em família e em
comunidade é a erosão da empatia. "A gente agora tem uma
dificuldade muito grande de acessar o outro, de compreender o outro, de saber o
que o outro pensa. A gente tem uma crise da escuta ativa", destacou
o Professor Everthon. Vivemos, portanto, sob a ilusão de um apoio
constante, onde apenas as vozes que ecoam nossos próprios preconceitos são
permitidas a entrar.
Desafio
pastoral
Para a Igreja e para os movimentos de assistência
familiar, o desafio é ainda mais complexo. A natureza da comunidade cristã é,
por definição, plural. No entanto, o comportamento digital tem levado os fiéis
a tentarem conviver apenas com quem concorda integralmente com seus pontos de
vista, ferindo o conceito de sinodalidade — o caminhar juntos — tão
caro ao Papa Francisco.
"Basicamente ouve o que quer e imagina e tem a
ilusão de que o mundo inteiro concorda com o que a gente pensa, porque a gente
é sempre apoiado e é afastado daquelas pessoas que discordam da gente", explicou o
palestrante. Essa resistência ao contraditório esvazia a capacidade de diálogo
e transforma as redes sociais em tribunais de linchamento ou em salas de
espelhos.
O congresso reforçou que a Pastoral Familiar
precisa atuar como um antídoto a essa fragmentação. O caminho proposto é o da
"formação teológica e sabedoria", ferramentas essenciais para que as
famílias recuperem a "capacidade de conviver com o diferente". Afinal,
a conexão real, aquela que transforma e acolhe, não depende de sinal de
internet ou de curtidas, mas da coragem de romper a bolha e verdadeiramente
olhar nos olhos de quem pensa diferente de nós.

Edição Portuguese

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