Como tomar decisões em um contexto cada vez mais incerto?
24/04/26
Num mundo que busca controlar tudo, mas
em que o futuro é cada vez mais incerto, o mero conhecimento não fornece as
chaves para tomar a decisão certa.
Que tipo de futuro profissional nos aguarda? Não é
fácil responder a essa pergunta, considerando o quanto o cenário mudou nos
últimos anos. A ascensão da Inteligência Artificial (IA) levanta preocupações
de que muitas habilidades serão substituídas em curto ou médio prazo. Em nosso
país, como evoluirá o clima social cada vez mais tenso? E como podemos
distinguir o essencial da torrente de informações que nos inunda diariamente?
Aqui está uma visão geral para ajudá-lo(a) a tomar decisões.
As consequências dessa crescente incerteza não são
apenas práticas, mas existenciais. A IA parece,
sobretudo, questionar nossa contribuição para o mundo, fazendo as coisas mais
rápido e melhor do que nós, mesmo em atividades intelectuais e criativas que
até agora eram reservadas aos seres humanos.
Isso gera uma profunda sensação de instabilidade.
Que contribuição podemos continuar a dar ao nosso planeta? Estaremos condenados
a nos tornarmos meros espectadores de um mundo que já não precisa das nossas
habilidades? Enfrentamos uma incerteza global persistente e difícil de
analisar.

Desistir
de saber tudo
Diz-se que Leibniz foi o último gênio universal
capaz de dominar todo o conhecimento de sua época. Depois dele, esse sonho de
conhecimento enciclopédico jamais seria novamente alcançável... até a chegada
da IA, que hoje, em tempo real, coloca uma imensa riqueza de conhecimento ao
nosso alcance, em todas as áreas.
Montaigne já defendia uma mente bem formada em vez
de uma mente meramente preenchida: integrando sabedoria ao conhecimento e
significado à erudição. Para ele, o juízo esclarecido precede o conhecimento
acumulado, o que implica um espírito crítico e discernimento para distinguir o
importante do incidental. A palavra suprema da sabedoria, portanto, não é o
conhecimento bruto, mas a precisão com que se compreende o mundo e se age sobre
ele.
Simplificar
Segundo Paul Valéry, "tudo
o que é simples é falso; tudo o que não é, é inútil". Devemos, portanto,
encontrar o equilíbrio certo entre a simplicidade que engana e a complexidade
que paralisa. Num mundo incerto, o perigo não reside em simplificar, mas em
esquecer que estamos a simplificar: devemos ter em mente que a realidade é
muito mais complexa do que percebemos. Combinar nuances com simplificação
demonstra sabedoria: "Ele só tinha bom senso", disse Saint-Simon
sobre Luís XIV, "mas tinha muito". O bom senso não é a simplificação
ingênua de uma situação complexa, mas uma forma de discernimento incorporado.
Sentir
Em situações de incerteza, devemos recorrer a todos
os recursos do nosso ser mais profundo para avançar apesar da ambiguidade. Para
aqueles que são forçados a tomar uma decisão difícil em tempo real, o
General Colin Powell deu
este conselho: "Primeiro passo: Use a fórmula segundo a qual P = 40 a 70,
onde P é a probabilidade de sucesso quando a porcentagem de informações obtidas
atinge o nível de 40 a 70. Segundo passo: Assim que a porcentagem de informações
ultrapassar esse intervalo de 40 a 70, aja por instinto."
Embora esta última fórmula se refira aos recursos
de energia e paixão, ela pode ser facilmente aplicada à intuição, ao nosso
conhecimento difuso, àquelas "pequenas percepções" que captam sinais
tênues em situações complexas. Porque, na incerteza, a decisão é tanto melhor
quanto mais combinar julgamento objetivo com sentimento subjetivo. O
comprometimento que depositamos em uma decisão tomada apesar da incerteza
aumenta suas chances de sucesso, mesmo que "objetivamente" ela não
seja a melhor.
Prudência
Aristóteles nos diz que a prudência se refere ao "que poderia ser diferente", ou seja, a situações mutáveis, imprevisíveis, novas e em aberto. Nesse contexto, o frônimos — a pessoa prudente — é capaz de deliberar e decidir sem garantias ou modelos. Na ausência de certeza, busca o que é certo.
A pessoa prudente de hoje é aquela que busca um
equilíbrio viável, discernindo o que importa aqui e agora, ajustando suas ações
à realidade em tempo real. Ela não substitui seu julgamento por um algoritmo.
Sua habilidade crucial não é aspirar a um conhecimento exaustivo, mas sim
julgar bem. Em um mundo incerto, essa é uma virtude que precisa ser
redescoberta.

Edição Espanhol


Comentários
Postar um comentário