Abraçando o impossível
16/04/26
Deus
pede a cada um o impossível que mais convém à sua alma
Se há algo de curioso nos pontos em comum dos
vários chamamentos de Deus na Bíblia e na vida dos santos é, sem dúvida, o
“abraço no impossível”. Parece fazer parte da pedagogia do Deus dos Impossíveis
exigir daquele que Ele chama este abraço radical que levará a dois do
fundamentos básicos para o “sim” à vontade de Deus: um esvaziamento
total e radical de si mesmo e, ao mesmo tempo, a entrega e confiante à vontade
de Deus.
Quem foram os grandes eleitos de Deus na Bíblia?
Quais as características de personalidade? Como se deu com cada um, este tão
imensamente difícil e libertador abraço no impossível”?
“Deixa!”
“Deixa!” Foi esta a primeira palavra que Deus disse
a Abrão. Deixa! O que Deus pedia para o caldeu Abrão deixar? Basicamente a
mesma coisa que Jesus pediria aos seus, séculos mais tarde: terra, família, a
casa do pai. O Deus dos Impossíveis pedia a Abrão que deixasse tudo. Não teria mais
pátria, nem a terra que ele conhecia tão bem e que o mantinha. Não teria mais o
apoio seguro da presença da família, que provavelmente nunca mais veria, nem a
tradição do clã, ao qual jamais voltaria. (Gn 12,1-4)
“Deixa”, diz Deus a Abrão. Em troca de quê? De
promessas. Abrão calou-se e obedeceu. Séculos mais tarde, o intempestivo Pedro
não se calaria: “Vê, nós abandonamos tudo e te seguimos”(Mt 19,27-29). O Deus
dos Impossíveis lembra que é também o Deus das Promessas e responde com a mesma
garantia dada a Abrão: a promessa do cêntuplo, com tribulações, e a vida
eterna.
Abrão obedeceu. Resolveu abraçar o impossível.
Sabia que ele e Sarai eram idosos e que ela era estéril. Sabia que devia
obedecer não apenas por causa da promessa, mas, muito especialmente por causa
daquele que o chamava. O autor do Gênesis reserva para o capítulo 15 o momento
da pergunta de Abrão, cuja fé havia já sido provada no sofrimento da fome e da
seca, na humilhação do Egito, na desfio da guerra. Mesmo sabendo que, aqui o
Gênesis não segue uma cronologia, pode-se contemplar Abrão, provado pela
tribulação, que argumenta: “Senhor Javé, o que me darei vós?” (Gn 15,2)
Você sabe a resposta. O Senhor dá a Abrão uma
promessa impossível ao velho marido da estéril Sarai: “Levanta os olhos para os
céus, e conta as estrelas, se és capaz… Pois bem, ajuntou ele, assim será a tua
descendência (Gn 15,5). Abrão não mais argumentou: “confiou no Senhor e o
Senhor lho imputou para justiça”(Gn 15,6). Na nossa linguagem, diríamos: “o
Senhor viu nesta atitude de Abrão uma prova de confiança e santidade e fez com
que este ato de fé se transformasse em graças em favor daquele que seria “pai
de uma multidão”. (Gn 17,4)
A confiança de Abrão nos promessas de Deus levou-o
a selar com Ele um pacto pela circuncisão da carne. A confiança do nosso
intempestivo Pedro, levou-o a selar com Deus uma aliança nova e eterna, no
sangue de Jesus Cristo.
A maior parte dos santos não se apoiou em outra
promessa que não a promessa bíblica do cêntuplo e não foi guiada por outra motivação
que não a do amor a Deus.
“Moisés, Moisés!”
“Moisés, Moisés!”. Com estas palavras, o Deus que
costuma chamar Seus filhos pelo nome interpela Moisés. Séculos mais tarde,
interpela da mesma maneira o grande Paulo: “Saulo, Saulo!” o que ordenou o “Eu Sou”
a Moisés? Naturalmente, o impossível: “Vai, eu te envio ao Faraó para tirar do
Egito os israelitas, meu povo” (Ex 3,10).
E ao altivo Saulo, homem intelectualizado,
conhecedor das culturas helênica e judaica, cidadão romano a quem ninguém
ousava enfrentar, o que ordenou aquele a quem Saulo perseguira e agora chamava
“Senhor” (At 9,5) ? O que queria aquele Senhor que o valente Saulo, preparado
para qualquer desafio, fizesse? Nada! Pelo menos, da sua auto-suficiência.
Instruído minuciosamente pelo Senhor para levantar-se, entrar na cidade e
esperar novas ordens, Saulo se vê cego e, portanto, impotente para cumprir a
ordem que lhe fora dada. Deus, novamente, pede o impossível e Saulo, tomado
pelo mão, é introduzido em Damasco, tendo passado três dias sem ver, sem comer
nem beber, esperando, em tremendo desconforto, que fosse cumprida a promessa de
que lhe “seria dito” o que deveria fazer (At 9,1-9)
“Quando o Espírito Santo Deseja Algo, Sempre
Realiza” ( S. Cura D’ars)
Observando da ótica do Deus dos Impossíveis,
poderíamos percorrer cada um dos grandes homens da Bíblia e perceber a presença
do trinômio: “chamado – impossível – promessa”. O mesmo ocorreria se víssemos a
vida dos santos. O “Reconstrói a minha Igreja” era tão impossível a Francisco
que ele nem consegue atinar o seu significado e confunde Igreja com a igreja de
S. Damião. No entanto, ainda que inocente sobre o plano total de Deus,
Francisco, como Abrão, como Pedro, como Moisés e Paulo, deu cada pequeno passo
de obediência e fé, e a graça de Deus caiu sobre a Igreja sob a forma do
franciscanismo, renovando – a
A reforma da secular Ordem Carmelita não seria
impossível a uma “formigazita”, a uma “mulherzita”, como Sta. Teresa de Jesus
se intitula? Teresa não vislumbrou aonde conduziria a Sua obra.
Sentia, a realidade, a “despreocupação de tudo
quanto não fosse servi-lo”(Fundações, Capítulo I). Deu, no entanto, o passo na
fé que lhe pedia o Deus dos Impossíveis, confiada, inteiramente, na Sua graça e
fidelidade.
A maior parte do santos não se apoiou em outro
promessa que não na promessa bíblica do cêntuplo e não foi guiada por outra
motivação que não a do amor a Deus. No entanto, permanece o trinômio “chamado –
impossível – promessa” ao qual cada um responde como amor obediente a Deus e a
fé confiante em Sua fidelidade.
Claro, tudo isso nada mais é que a correspondência
à graça, ao Espírito que lhes trabalha na alma, pois, “quando o Espírito deseja
algo, sempre o realiza”.
“Senhor, eu te dou tudo… E eu te peço tudo!”
Alguém no mundo jamais recebeu ou receberá chamado
tão impossível como o de Maria? Alguém jamais terá ouvido promessa tão
improvável? Alguém terá jamais respondido com tamanha fé e simplicidade?
“A Deus nenhuma coisa é impossível (Lc 1,37),
afirma o Arcanjo Gabriel resumindo em uma frase a explicação da ação fiel da
graça de Deus em milênios da história da Salvação. O Deus dos Impossíveis foi
tecendo, ao longo dos “sim” dos homens. “sim” ora titubeantes e medrosos, ora
corajosos, arrojados, impetuosos, mas sempre “sim”. Na verdade, Deus precisa
apenas deste “Sim” inicial, porque, de resto, tudo é graça que o renova
revitaliza e conduz para o centro da Sua vontade`.
“Fiat!”, disse Maria, na palavra que resume, ecoa e
eleva a píncaros insondáveis todos os “fiat” de todos os tempos. Resume o “Pai,
é difícil, mas eu creio, eu quero, eu vou”, porque Tu queres, eu quero. Resume
ainda a entrega daqueles que têm a graça de unir a generosidade à humildade; a
entrega ao abandono, em uma “humilde rendição a Deus”.
Deus, na verdade, pede a cada um o impossível que
mais convém à sua alma. No entanto, em todos os “impossíveis” que pede, está
sempre presente a exigência da entrega, da humildade, do abandono de si mesmo.
O orgulho e a auto-suficiência consistem nos maiores empecilhos para que seja
feita a vontade de Deus na vida de alguém. “Confiar em si mesmo não é somente
conservar a consciência e a propriedade do próprio ser. É, ainda que
inconscientemente, erigir-se como princípio último de seus próprios atos,
afirmar, prática, sua independência, confrontando-a ao ser de Deus. A alma que
confia em si não tem como estar perfeitamente submissa e nem, por conseguinte,
pode amar”. Como abraçar o impossível se confia apenas em si mesmo, se
considera como princípio último dos próprios atos a sua própria força e
potência? Não foi à toa que Deus precisou deixar Paulo cego!
Deus, na verdade, pede a cada um o impossível que
mais convém à sua alma
Consciente de sua inteira incapacidade e pobreza,
Pe. Jacques Marin orou, no momento de sua entrega a Deus: “Senhor, eu te dou
tudo… e eu te peço tudo”. É como se orasse: Eis aqui o meu “Seja feita”, mas vê
bem, é voz passiva! Não sou eu quem farei, é tu quem farás em mim e por mim,
para que vejam a Tua glória”. Quem pensa assim diz com Maria “realizou em mim
maravilhas Aquele que é poderoso e cujo nome é Santo Sua Misericórdia se
estende, de geração em geração sobre os que o temem. Manifestou o poder do seu
braço”(Lc 1, 49ss). Quem tem esta convicção sincera da própria impotência
diante do chamamento de Deus – e age e m coerência com Ela! – abraça o
impossível.
Deus, Drama e Solução
“Deus, Drama e Solução” é o título do segundo
capítulo do livro de Maximiliano Herraiz Garcia “Solo Dios Basta”.
Olhando nossos irmãos que durante toda a história
da salvação e da Igreja abraçaram o impossível, reconhecemos a veracidade e
adequação desta expressão. Deus foi o seu drama, diríamos, até, seu “problema”,
mas foi também , sua única e felicíssima solução!
Abrão, Moisés, José, Samuel, Judite, Rute, Ester,
Davi, Elias, Isaias, Oséias, certamente concordaram com esta afirmação. José,
João Batista, Maria, Pedro, Felipe, André, Barnabé, João, Saulo, testemunham-na
com suas vidas. Os santos a retratam; sua vida é Deus, está inseparável e
intrinsecamente ligada à Vida d’Ele e n’Ele. Jeremias, porém, resume-a
magistralmente:
“Seduziste-me, Senhor; e eu me deixei seduzir!
Dominaste-me e obtiveste triunfo.” (Jr 20,7)
Incompreendido, caluniado e perseguido por causa de
Deus, Jeremias tem n’Ele o seu problema e a sua solução depois, quando a opção
por Deus entra pelo caminho da aceitação humilde, do amor desinteressado, do
abandono confiante e do despego efetivo, ainda que pobre nos começos, dos
amores que haviam resistido ao Amor”.
A solidão necessária
Jeremias viu-se só e, na solidão e dor, optou
fundamental e definitivamente por Deus. O mesmo fizera Davi no silêncio da
caverna onde poderia ter optado por si mesmo e matado Saul. Davi e Jeremias
partilham da solidão necessária para o “sim” fundamental e incondicional,
crescente e irreversível, responsável e consciente a Deus. O abraço no
impossível é, necessariamente, solitário. Seu itinerário é tão exigente e
doloroso quanto mais agudas as arestas que o Oleiro precisar moldar.
Daí ser fundamental retirar-se para o “Horeb” e lá,
em oração humilde e paciente, “afinar” cada vez mais os ouvidos da alma para
poder perceber a vontade de Deus no “murmúrio da brisa ligeira”( I Rs 19) Sem a
oração não conhecemos a Deus. Se não O conhecemos, não temos como confiar
n’Ele. Moisés precisou ir “para além do deserto” de sua curta visão para
encontrar a sarça. Oséias e João Batista foram levados ao deserto. Cada santo,
cada um deles, contou com o auxílio da oração e, pela oração conheceu e
encontrou a Deus e a Sua vontade. Na oração, encontramos resposta e força para,
na solidão do encontro frente a frente com Deus, abraçarem o impossível.
Não há como não evocar aqui José, que encontra, na
solidão mais absoluta, a resposta e orientação de Deus:“Filho de Davi, não
temas… Maria concebeu do Espírito Santo… é a Virgem de Israel que dará à luz o
Messias, filho de Deus”(cf Mt 1,20ss). José, repentinamente arrebatado a um
deserto de angústia, dúvida e solidão, encontra a resposta no seu Deus, a quem
certamente invocara embora, por sua decisão humana, houvesse resolvido
“rejeitar Maria secretamente”. A resposta de Deus àquele homem justo superou em
amor sua generosidade lícita de poupar Maria. Deus sempre dá uma resposta mais
adequada ao amor àquele que, na solidão, O escuta.
O Abraço no caminho mais excelente
Pelos séculos afora, Deus tem sido o problema e a
solução de todo aquele que O ama. A estes homens e mulheres chamados a amá-lo
acima de tudo, Deus propõe o abraço do impossível. A eles oferece uma promessa,
na qual devem confiar por causa de Quem a faz. Seduzidos pelo Amor, confiam
naquele que os ama e obedecemos. Nem têm mais diante de si a promessa, mas
somente o desejo de amar mais e melhor.
O Espírito, que sempre realiza o que deseja,
leva-os a mar cada vez mais a Deus e ter na vivência deste amor seu principal
problema e sua principal solução.
E quem a Deus ama, ensina Jesus, prova este amor
pela obediência à Sua vontade (cf Jo 14,21-24). A estes amantes obedientes Deus
dá o Espírito Santo porque obedecem (cf. At 5,32). O Espírito, que sempre
realiza o que deseja leva-os a amar cada vez mais a Deus e ter na vivência
deste amor seu principal problema e sua principal solução. Impulsionados a amar
a Deus, íntimos dele na solidão da oração, entendem profundamente o “Amai-vos
como eu vos amo”(Jo 15,12). Entendem-no porque o experimentem, sabem como é que
Deus ama, conhecem na própria vida a maneira dele amar. Podem, assim, cumprirs,
nas diversas formas de chamamento, o único carisma comum a todas as vocações e
abraçam, impotentes, humildes e generosos, o impossível de amar a Deus e ao
homem como são amados pelo fiel Deus dos Impossíveis. Deixam, assim seus passos
de luz no caminho que abraçaram, o “mais excelente de todos”.
Possa o Fiel Deus dos impossíveis tomar-nos, como a
eles, seduzir-nos, colher nosso “sim”e ser nosso problema – diante do qual nos
rendemos – dando tudo – e nossa solução – quando, dependendo inteiramente dele,
pedimos tudo.

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