O amigo abandonado
Uma vez que Jesus beneficiou tantos desconhecidos, iria Ele abandonar um
amigo?
Ressurreição
de Lázaro, catedral de Autun, França Foto: Sergio Hollmann
Redação (22/03/2026) A liturgia deste 5º Domingo
da Quaresma apresenta o ponto culminante de uma sequência de sinais relatados
por São João que ressaltam a natureza divina de Nosso Senhor.
Provando ser
Deus ao retirar Lázaro da mansão dos mortos, Jesus não velou, entretanto, os
aspectos mais íntimos de sua humanidade quando as preciosas lágrimas que
rolaram de sua face testemunharam o afeto e o carinho que sentia pelo finado.
Mas, se o
que separava Jesus de Lázaro era o percurso de apenas uma jornada,[1] o que fez com que o Salvador
permanecesse ainda por dois dias onde estava, em detrimento do socorro ao amigo
agonizante?
O moribundo desolado
Esta
indagação poderia ser facilmente respondida pelo risco de vida que Jesus corria
dentro da jurisdição do sinédrio, visto que, no final do capítulo anterior (cf.
Jo 10,39), o Discípulo Amado relata a tentativa de aprisionamento de Nosso
Senhor, fator que O levou a retirar-se para o outro lado do Jordão. Apesar
disso, se o filho do funcionário real que morava em Cafarnaum foi curado à
distância (cf. 4,46-54), o que O impedia de fazer o mesmo com Lázaro?
Não seria
descabido imaginar que o enfermo, sentindo a morte se aproximar e percebendo
que o Mestre não vem, fosse assaltado por algum problema de consciência: a
ausência de Jesus seria o castigo de algum pecado? Teria sido infiel? Por que
ele, que dera ao Mestre mostras sinceras de adesão e que tantas vezes o
acolhera em sua casa, via-se agora abandonado?
Bastava uma
palavra d’Ele e tudo estaria resolvido! Então, qual a razão de tal conduta?
Nosso Senhor teria esquecido ou negligenciado alguém tão amado?
A exigência de uma fé inabalável
A prova do
abandono causa sofrimentos terríveis. E não é raro encontrar, ao longo da
História, almas com vocações singulares que beberam desta taça amarga. O que
dizer, por exemplo, de uma Santa Joana d’Arc que, tendo conquistado Orléans e
após repetidos triunfos, caiu nas mãos dos inimigos, tendo por algozes aqueles
em quem esperava ver pastores? Não havia ninguém ao lado dela, tanto nos
julgamentos quanto na execução. Somente quando as chamas tocaram seu corpo é
que a sensação do abandono cessou e foi-lhe atestado, numa visão mística, que
as vozes celestiais não haviam mentido.
O que se
exige nestas circunstâncias é uma fé alicerçada na seguinte convicção: tudo
concorre para o bem dos que amam a Deus (cf. Rm 8,28). Logo, se Deus permite um
sofrimento, é porque daí tirará um benefício maior.
E aqui se
encaixa a segunda leitura em que o Apóstolo, na mesma epístola, faz alusão a
dois modos de viver: segundo a carne ou segundo o espírito.
Os que se
encontram no primeiro caso são incapazes de elevar sua inteligência a patamares
superiores, e enxergam a vida a partir de um prisma materialista.
Já os que
vivem segundo o espírito veem a realidade com os olhos da fé e sabem que, por
mais que não se encontrem explicações para esta ou aquela dificuldade, há por
detrás uma razão mais alta que, sendo por vezes inatingível pelo homem, nem por
isso é menos verdadeira.
Os frutos da prova
Deus não é
um carrasco. Quando Deus permite que alguém sinta a prova do abandono, não é
por um desejo sádico de torturar, mas porque Ele deseja utilizar os méritos
deste sofrimento para estabelecer um novo relacionamento de graças, seja com a
pessoa provada, seja com uma família de almas ou mesmo com toda a Santa Igreja.
Retomando o
caso da santa francesa, o que seu holocausto terá conquistado? Mesmo depois de
morta, o impulso de sua ação promoveu a expulsão dos ingleses, prevenindo a
França do cisma vindouro. Mas não só! Ela deixou consignado para a posteridade
que em uma alma podem coexistir a candura de uma virgem com a fortaleza de um
guerreiro, afirmando, com sua vida, que a inocência e a combatividade não são contraditórias.
E o que
dizer de Lázaro?
Os detalhes
narrados por São João não deixam dúvida sobre o fato da morte. Já havia quatro
dias que o cadáver estava sepultado e os efeitos deletérios da putrefação
corroboravam o óbito. Mas a morte de Lázaro estava vinculada a um desígnio
altíssimo e serviria de instrumento para a manifestação pública e irrefutável
da divindade de Jesus.
O Salvador
não precisava recorrer a Deus para ressuscitar a Lázaro, assim como o fez o
profeta Elias com o filho da viúva de Sarepta (cf. 1Rs 17,17-24). Bastou-Lhe
dizer: “Lázaro, vem para fora!” — e, no momento em que o morto saiu da caverna,
estava patente que, se apenas Deus tem o pleno poder sobre a vida, aquele homem
era Deus!
O Verbo Encarnado experimentou a
dor do abandono
Mas, ó dor!,
quem poderia imaginar que Ele próprio, o Filho Bem-Amado, sentir-se-ia
abandonado pelo Pai?
Chagado,
humilhado, pregado no madeiro, o Verbo Encarnado quis atravessar as agruras do
abandono para assim ensinar que na hora do brado lancinante “Meu Deus! Meu
Deus! Por que me abandonaste?”, a única atitude correta é proclamar: “Senhor,
em tuas mãos entrego o meu espírito!”
A Mãe
dolorosa não era alheia às dores do Filho. E de modo algum o seria em relação
às dores dos filhos. Pedimos-Lhe, então, que Ela esteja ao nosso lado durante
as semanas vindouras em que acompanharemos passo a passo os lances trágicos da
Paixão, nos ensinando que, por mais que as aparências digam o contrário, Deus
jamais abandona aqueles que O amam!
Por Rodrigo Siqueira

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