Estilo de vida

Recorra à Regra de Santo Agostinho para experimentar a felicidade!

10/03/26

Breve, simples e prática — será que a "Regra de Santo Agostinho", a mais antiga regra monástica, pode fazer uma diferença significativa na vida diária de cada pessoa? Certamente. Ela oferece diretrizes para uma melhor convivência — seja na vida religiosa, no casamento, na família, na vida social ou na vida profissional.

"Estou convencido de que Santo Agostinho, ao escrever sua Regra , o fez não apenas pensando nos religiosos, mas também nos casais, nas famílias, na sociedade e em outras comunidades", afirma François-Marie Humann, abade da Abadia de São Martinho-Segunda (Calvados), que vive essa Regra como monge premonstratense. Segundo o autor do comentário sobre a Regra de Santo Agostinho:

A vida religiosa, assim como a vida de todo cristão, é um desenvolvimento da graça do batismo.

Como ele explica, " A Regra de Santo Agostinho dirige-se principalmente aos batizados, porque ensina como viver plenamente pela graça do batismo."

Esta primeira regra de vida religiosa no Ocidente foi escrita em 397 e é muito prática. Ao longo de oito capítulos, apresenta um modelo de vida inspirado na primeira comunidade cristã em Jerusalém , descrita no Livro dos Atos (Atos 4:32). Enfatiza o amor fraterno que deriva de um duplo mandamento: o mandamento de amar a Deus e ao próximo, que são inseparáveis: "Por isso, antes de tudo, vocês se reuniram em uma só casa, para viverem em harmonia, terem um só pensamento e um só coração para com Deus. Não considerem nada como propriedade sua, mas compartilhem tudo com vocês" (Regra, Capítulo I, 1-2).

Para o padre, a Regra Humana é, em última análise, "uma forma de viver o Evangelho que se concentra em certos aspectos dele. Ela diz respeito a cada batizado em uma dimensão relacional, porque, segundo Agostinho, a santidade se alcança por meio de uma vida comunitária na qual cada pessoa cuida da outra", conclui ele. Descubra seis princípios-chave contidos na Regra de Santo Agostinho :

1ENXERGANDO O OUTRO COMO "O TEMPLO DE DEUS"

© Evgenij Yulkin | Stocks United

Para Santo Agostinho, tudo começa com o esforço de manter a unidade de coração, essencial em toda relação fraterna em nosso cotidiano: entre monges e seus superiores, mas também entre pais e filhos, entre cônjuges, amigos ou colegas de trabalho… A unidade de coração exige constante adaptação mútua. Para que isso seja verdadeiramente possível, é essencial que cada pessoa veja a si mesma e ao outro como um “templo de Deus”: “Portanto, vivam todos em harmonia e unidade, e honrem uns aos outros a Deus, de quem vocês se tornaram templo”. Escutar os outros, estar atento ao que dizem, simpatizar com suas preocupações e alegrar-se com seus sucessos é a prática da hospitalidade mútua, que conduz à unidade de coração.

2VIVENDO JUNTOS EM AMIZADE COM DEUS

Kristin Rogers/Stocksy United

Foi exatamente isso que Santo Agostinho fez no momento em que se tornou bispo. Sentindo muita tensão entre sua nova vida episcopal e a vida comunitária, ele decidiu deixar o "mosteiro do jardim" e fundar um mosteiro na casa episcopal — no mesmo espírito, mas vivido de maneira diferente. Segundo Santo Agostinho, a vida comunitária pode assumir muitas formas diferentes. O mais importante é focar no bem comum, que é somente Deus. Em sua obra Sobre a Vida Feliz , Santo Agostinho pergunta: "Basta ter o que se deseja para ser feliz?". Santa Mônica, sua mãe, responde: "Se [uma pessoa] deseja o bem e o tem, é feliz; mas se tem o mal, mesmo que o tenha, é infeliz". 

Uma vida feliz, portanto, significa viver em comunhão com Deus, baseada na livre submissão a Ele, que é o único bem comum que "tem valor". Por isso, é preciso possuir Deus para ser feliz, diz Santo Agostinho. Isso é verdade tanto na vida religiosa quanto na vida matrimonial. Situações difíceis da vida, a passagem do tempo e as mudanças pelas quais cada pessoa passa muitas vezes se tornam obstáculos que parecem cada vez mais difíceis de superar no caminho da felicidade e da união. A menos, é claro, que os cônjuges confiem seu relacionamento diretamente a Cristo e concordem em viver seu dia a dia sob o Seu olhar.

3COMPARTILHE OS BENS MATERIAIS COM TODA A HUMILDADE

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Segundo Santo Agostinho, a hospitalidade mútua deve necessariamente ser vivida na dimensão material. Para ele, a vida comunitária significa partilhar os bens, que são colocados à disposição de todos e distribuídos a cada um segundo a sua necessidade. Inspirado no estilo de vida dos primeiros cristãos, este princípio exige um esforço duplo – social e espiritual, a renúncia aos bens materiais e a humildade: "Os ricos devem renunciar às suas riquezas, mas também ao orgulho que sentem por causa delas. Os pobres, por outro lado, devem renunciar ao seu desejo de riquezas, mas também ao orgulho que sentem por causa da sua boa situação atual."

As tarefas terrenas e os favores diários tornam-se, assim, um espaço de hospitalidade alternada: um cuida da cozinha, outro reza e outro lava a roupa... Talvez o segredo para uma vida melhor esteja no amor que nos acompanha em cada momento do nosso dia a dia, por mais árduo que seja? Deus se revela precisamente através das pequenas coisas que vivenciamos diariamente.

4CONSTRUA RELACIONAMENTOS PARA QUE TODOS POSSAM ENCONTRAR SEU LUGAR

Ivo De Bruijn | Stocks United

Cada obrigação diária nos permite testar nossa atenção aos outros. Os irmãos devem estar atentos à singularidade de cada um e dispostos a acolher suas diversas necessidades. Segundo Santo Agostinho, o ideal da vida comunitária se materializa na constante preocupação em não sobrecarregar os mais frágeis. A atenção dos monges deve se concentrar precisamente naqueles que não conseguem perseverar no jejum até o anoitecer, naqueles cuja saúde é frágil.

Para ter sucesso, é necessário discernimento constante em nosso relacionamento com os outros e conosco mesmos, pois trata-se de um relacionamento saudável. Os irmãos mais fracos "devem ser tratados da mesma forma" que os mais fortes; "nem todos devem desejar o que alguns recebem em excesso". Por que invejar a bondade alheia quando nós mesmos possuímos tudo o que precisamos?

5Admoestar os outros de maneira fraterna.

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No entanto, há também situações em que a atenção ao outro exige o oposto. Uma violação das regras da vida comunitária exige correção fraterna. Esta não consiste em analisar a vida do outro, mas em permanecer atento a ele, no espírito de "unidade de coração". A omissão em advertir indica falta de interesse pelo outro, uma incapacidade de aceitá-lo como alguém com quem buscamos a unidade de coração. Muitas vezes acontece que aquele que é admoestado se entristece inicialmente. Resiste e questiona, mas depois, a sós com Deus, mergulha no silêncio, em seus pensamentos, ponderando o que acabou de ouvir. Já não teme perder a aprovação humana se mudar seu comportamento, mas teme desagradar a Deus se não o corrigir.

6PERSEVERE NO AMOR

Por Swanesson | Stocks United

Poderíamos pensar na Regra como a arte de manter o equilíbrio nos relacionamentos e a atenção aos outros. No entanto, para Santo Agostinho, essa atitude está subordinada ao chamado ao amor. O amor está no centro do seu pensamento. É o que mobiliza a alma, o que a preenche de força e vida, conduzindo-a ao seu "lugar natural": "Minha força gravitacional é o meu amor" ( Confissões, XIII, 9). É também o cerne de todas as virtudes e a perfeição à qual elas conduzem. Santo Agostinho vê a sua culminação no amor misericordioso, a forma mais elevada de amor que, ao doar-se infinitamente, assegura-se do Bem Supremo.

O amor misericordioso se expressa no mandamento de Cristo: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei” (Jo 13,34). Esta é precisamente a essência da vida comunitária: no dom do Espírito Santo, de quem provém o amor. Cada pessoa acolhe a Deus acolhendo o outro. A hospitalidade do próprio Deus é reconciliação, sinal da verdadeira unidade. A alegria que brota da unidade é fruto do amor misericordioso, o amor mútuo que Deus nos dá. Este anseio pelo verdadeiro amor ecoa nas célebres palavras de Santo Agostinho: “Eu ainda não estava apaixonado, e já amava a própria ideia de me apaixonar” ( Confissões, III, 1 ).

Edição Polônia

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