O que realmente queremos dizer quando recebemos as cinzas
19/02/26
A Quarta-feira de Cinzas é um simples
ato de dizer a verdade.
Todo mundo precisa de uma maneira de se lembrar de
coisas importantes. Por exemplo, escrevemos lembretes em post-its e os
colocamos em lugares onde serão vistos logo pela manhã.
Na vida espiritual, esquecemos facilmente algumas
verdades básicas, como o fato de Jesus ser plenamente humano e plenamente
divino. Assim, na Missa, depois de proclamarmos o Evangelho de Jesus Cristo e
ouvirmos uma mensagem sobre como aplicá-lo às nossas vidas, professamos a nossa
fé de que este Jesus é plenamente humano e plenamente divino.
A Quarta-feira de Cinzas nos lembra de algo que
está no cerne da nossa fé católica. Quando recebemos as cinzas na testa, nos
envolvemos em um ato simples, porém vívido, de constatação da verdade: somos
plenamente humanos, mas certamente não somos divinos.
No início do Evangelho de Lucas, Jesus encontra
alguns pescadores e lhes diz para lançarem as redes novamente. Eles pescam
tanto que o barco quase afunda. Simão sabe que o que aconteceu não é
humanamente possível, mas requer intervenção divina. Ele cai de joelhos em um
ato de confissão de verdade: “Afasta-te de mim, Senhor, porque sou um homem
pecador” (Lucas 5:1-13).
Começamos a Quaresma com uma lembrança vívida da
verdade que Simão Pedro professa. Ou seja, respaldamos nossas palavras com a
ação de nos marcarmos com cinzas. Fazemos algo semelhante com outras palavras
que dizemos. Quando dizemos a uma criança: "Eu te amo", respaldamos
nossas palavras de amor com um abraço e um beijo. Palavras e ações juntas criam
momentos de expressão da verdade.
Marcar-nos com cinzas confere ao momento da
revelação da verdade uma qualidade "pegajosa", pois envolve nossos
sentidos. Sentimos as cinzas sendo aplicadas, vemos suas marcas nas testas uns
dos outros e ouvimos as palavras: "Lembra-te que és pó e ao pó voltarás"
ou "Arrepende-te e crê no Evangelho". Nossos corpos muitas vezes se
lembram melhor do que nossas mentes sozinhas.
As cinzas surgiram das primeiras práticas cristãs
de arrependimento público e, com o tempo, tornaram-se parte do início
comunitário da Quaresma na Igreja. No entanto, a ligação entre cinzas e
arrependimento é anterior ao cristianismo.
Nosso
lugar
Desde o princípio, as cinzas nos lembram da verdade
sobre o nosso lugar diante do Criador. Deus nos forma a partir do pó da terra.
Quando nos esquecemos de que somos criaturas e não iguais a Deus, perdemos a
comunhão com o nosso Criador. Deus nos lembra: “Pois tu és pó e ao pó voltarás”
(Gênesis 3:19). Mais tarde, Abraão, o pai do povo da aliança, deixa um legado
de humildade ao orar: “Sou apenas pó e cinzas” (Gênesis 18:27). As cinzas
intensificam a verdade da nossa condição de criaturas.
Em outros contextos, as cinzas são associadas ao
arrependimento, como quando Jonas prega em Nínive, e até mesmo o rei assírio se
levanta do trono, veste-se de pano de saco e senta-se em cinzas (Jonas 3:6). Da
mesma forma, quando Jó admite seu erro, ele diz a Deus: “Renego o que disse e
me arrependo no pó e na cinza” (Jó 42:6).
Mais tarde, quando o povo é exilado para a
Babilônia, as cinzas passam a simbolizar a ruína e a perda, que Deus troca por
um diadema (uma coroa real) ao restaurá-los à sua terra natal (Isaías 61:3).
Todo o movimento histórico do Antigo Testamento
encontra sua plenitude em Jesus. Embora Jesus não exija o uso de cinzas,
certamente ele conhece o seu significado. Quando proclama o cumprimento da
antiga esperança de um reino restaurado, ele chama as pessoas ao arrependimento,
mas não com as performances dos artistas de rua de hoje ou com as máscaras
sombrias dos hipócritas (Mateus 6:16). Em vez disso, ele chama as pessoas a uma
conversão humilde e fervorosa do coração.
A Quarta-feira de Cinzas marca o início de nossa
jornada comunitária rumo à Cruz e à Ressurreição de Jesus. Recebemos as cinzas
para confessar a verdade sobre nós mesmos: que somos criaturas na criação de
Deus, e não iguais a Ele. Quando essa verdade é acolhida, nossas práticas
quaresmais de oração, jejum e esmola podem nos conduzir mais profundamente ao
nosso devido lugar diante de Deus.
Então, na Páscoa, podemos descobrir mais facilmente
que Deus não nos abandona ao exílio do pecado, mas nos restaura através da
Morte e Ressurreição de Cristo.
Que possamos então encontrar o nosso lugar diante
de Jesus, como fizeram Simão Pedro e outros — humildes o suficiente para
admitir a nossa necessidade e prontos para largar as redes e segui-lo aonde
quer que a pesca seja melhor.

Edição Inglês

Comentários
Postar um comentário