Acordo do Mercosul e o evangelho de Mateus: “Todos comeram e ficaram satisfeitos”
07/02/26
A
parábola da multiplicação dos cinco pães e dois peixes, narrada nos Evangelhos,
é mais do que um relato de um milagre físico: trata-se de uma pedagogia
espiritual e social sobre partilha, confiança e abundância.
Ouvindo o que havia ocorrido, Jesus retirou-se de
barco, em particular, para um lugar deserto. As multidões, ao ouvirem falar
disso, saíram das cidades e o seguiram a pé. Quando Jesus saiu do barco e
viu tão grande multidão, teve compaixão deles e curou os seus doentes. Ao
cair da tarde, os discípulos aproximaram-se dele e disseram: “Este é um lugar
deserto, e já está ficando tarde. Manda embora a multidão para que possam ir
aos povoados comprar comida”.
Respondeu Jesus: “Eles não precisam ir. Dêem-lhes
vocês algo para comer”. Eles lhe disseram: “Tudo o que temos aqui são cinco pães e dois peixes”.
“Tragam-nos aqui para mim”, disse ele. E
ordenou que a multidão se assentasse na grama. Tomando os cinco pães e os dois
peixes e, olhando para o céu, deu graças e partiu os pães. Em seguida, deu-os
aos discípulos, e estes à multidão. Todos comeram e ficaram satisfeitos, e
os discípulos recolheram doze cestos cheios de pedaços que sobraram. Os
que comeram foram cerca de cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças.
Quando
observamos o acordo comercial entre a Europa e os países do Mercosul à luz
dessa passagem, emerge uma metáfora poderosa sobre como a divisão
responsável dos bens — sobretudo da matéria-prima concedida pelo Criador —
pode gerar prosperidade para todos.
No Evangelho, Jesus se depara com uma multidão
faminta. Humanamente, os recursos eram insignificantes: cinco pães e dois
peixes. Diante da escassez aparente, os discípulos hesitam. O medo da falta
fala mais alto do que a confiança. Ainda assim, Jesus os convida a um gesto
radical: oferecer o pouco que se tem. Ele toma os pães, dá graças, parte-os e
os entrega para que sejam distribuídos. O texto sagrado nos lembra que todos
comeram e ficaram satisfeitos, e ainda sobraram cestos cheios. A
abundância nasce no exato momento da partilha.
Essa lógica do evangelho confronta a mentalidade de
retenção que frequentemente domina as relações econômicas globais. No cenário
do acordo entre Europa e Mercosul, vemos dois blocos com dons distintos: de um
lado, tecnologia, capital e mercados consolidados; de outro, terras férteis,
alimentos, energia e matérias-primas que brotam da criação.
Quando
cada parte tenta preservar apenas seus próprios interesses, o resultado tende à
desconfiança e à estagnação. Mas quando há disposição para compartilhar — com
justiça, equilíbrio e respeito — o “milagre” econômico se torna possível.
Jesus diz aos discípulos, em essência, que não
tenham medo: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. É um chamado à
responsabilidade coletiva. No contexto comercial, isso ecoa como um convite
para não temer a abertura, nem a cooperação. A matéria-prima não é apenas um
ativo econômico; ela é dom da criação, destinada ao bem comum. Quando esses
dons são partilhados de forma ética e solidária, eles não se esgotam —
multiplicam-se em valor, emprego, desenvolvimento e dignidade.
A multiplicação acontece porque alguém decide
partir o pão.
Não
há milagre sem o gesto inicial da entrega.
Da mesma forma, acordos internacionais só se tornam
verdadeiramente frutíferos quando superam a lógica do ganho unilateral e
assumem a vocação da reciprocidade. Compartilhar produtos, conhecimento e
recursos naturais com responsabilidade não empobrece; ao contrário, cria
cadeias de abundância que alcançam agricultores, trabalhadores, consumidores e
futuras gerações.
O Evangelho também ressalta que Jesus manda o povo
se sentar, organizar-se. A partilha não é caótica; ela exige ordem, compromisso
e visão. Assim também nos acordos comerciais: regras claras, proteção
ambiental, respeito social e equilíbrio são condições para que a abundância não
seja apenas prometida, mas efetivamente experimentada.
No fim, a mensagem é a mesma, ontem e hoje: o medo
da escassez paralisa, a partilha gera abundância. Quando os dons do Criador — a
terra, os frutos, o trabalho humano — são compartilhados com espírito de
justiça, o pouco se torna muito. A multiplicação dos pães e peixes continua a
acontecer sempre que nações, como pessoas, escolhem confiar que dividir não é
perder, mas o caminho mais seguro para que todos tenham em plenitude.

Edição Portuguese

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