Como é difícil ser hoje uma pessoa de fé
15/12/25
Queremos
um Deus que ajeite tudo, que nos dê tudo; mas que não peça nada, deixando-nos
regular a nós mesmos
Não é fácil ser uma pessoa de fé. A própria
experiência nos demonstra. O contato com os outros e ser protagonistas de um
momento histórico como o que vivemos hoje torna isso visível. O secularismo e o
relativismo, duas forças que movem o pensamento da humanidade, têm arrastado o
mundo, de maneira sedutora, para o que chamamos de modernidade.
Não é que seja má a modernidade, é que simplesmente
ainda não compreendemos que os povos que esquecem as suas raízes e história não
são capazes de sobreviver quando o referente religioso, e no caso concreto
nosso, de fé, cede lugar a uma interpretação do mundo e da ética isolada do
sentido de transcendência e espiritual que cada ser humano leva em seu
interior. É que não se pode ser moderno com sacrifício do fundamental, do
estruturalmente inamovível e eterno.
Hoje é moderno contemporizar com o mundo,
relativizar tudo, abandonar Deus para não ter que prestar contas a ninguém, nem
sequer a nossa própria consciência, e deixar que a sociedade, por meio de
consensos, determine quando uma conduta é apropriada ou não.
Deixar tudo à interpretação das culturas atuais é o
que tem levado à queda grandes sociedades que em outros tempos foram baluartes
intelectuais e morais. É mais fácil a hipocrisia religiosa: rezar por
obrigação, invocar um Deus em quem supostamente cremos para que venha apagar os
incêndios que provocamos, pedir-lhe que conserte o que destruímos. Queremos um
Deus que ajeite tudo, que nos dê tudo mas que não peça nada, deixando-nos
regular a nós mesmos, que não questione ou pergunte nada. Temos forjado uma
ideia de Deus diferente da apresentada por Jesus: um Deus que deixe o mundo ser
mundo, que seja alheio a nossas condutas, que não dê uma interpretação moral a
nossas ações, e que, caso intervenha, que seja para limpar as nossas sujeiras.
Coragem
Por isso não é moderno, mas obscurantista e
medieval, defender a vida em todas as suas manifestações: a embrionária, a
anciã e todas as que o mundo considera inúteis. Ninguém quer parecer
extraterrestre, antiquado, moralista, obcecado, em um mundo que nos arrasta,
onde o bem e o mal dependem da cultura, onde cada um constrói a sua própria
moral dependendo dos seus interesses.
Não é fácil ser um homem de fé. Para sê-lo, é
preciso correr o risco de se chocar contra tudo que nos cerca, começar a ser
coerentes com o que professamos e viver segundo o estilo ensinado por Jesus.
Para ser de fé é necessário não só crer em um Senhor, mas crer no Senhor, e
isso em ocasiões em que nos perguntamos se os ensinamentos de Cristo não estão
circunscritos em um marco histórico e cultural diferente do nosso.
Não é fácil ser uma pessoa de fé, mas é necessário.
A fé foi feita para gente com coragem, que leva a vida a sério e não se
contenta em nascer, crescer, reproduzir-se e morrer. Gente que sente que a sua
vida está dada para algo maior e que portanto busca um novo estilo, uma nova
maneira de interpretar a existência, levando em conta os ensinamentos do
Evangelho. Onde muitos veem inutilidade, nós vemos oportunidade; onde vivem de
costas para Deus, nós vivemos face a face. Nossas decisões estão ancoradas
Nele. Ali onde se relativiza, nós decidimos por convicção. Um cristão é uma
pessoa que tenta olhar as coisas do modo como Deus as vê. Hoje é até fácil ser
uma pessoa com certa religiosidade, mas não muito fácil ser alguém de
verdadeira fé.

Edição Portuguese

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