Contemplação de Deus &
Natureza e dignidade do amor
16/03/26
É Guilherme de Saint-Thierry o mais intelectual dos escritores
monásticos do século XII
Este é o título de uma obra da Cultor de Livros a
reunir dois escritos de Guilherme de Saint-Thierry (1075/90-1148), abade
cisterciense e doutor da contemplação.
De começo, faz-se útil lembrar que Guilherme é,
segundo renomados estudiosos citados pelo Pe. João Paulo de Mendonça Dantas, na
oportuna introdução às obras, um dos personagens mais importantes da teologia
monástica, uma vez que o seu labor teológico centra-se na Sagrada Escritura e
nos Padres da Igreja. Seus escritos se revestem de uma intelecção amorosa e uma
contemplação adorante. Pois bem, tais qualidades são aptas a fazer bem à mente
e ao corpo. É Guilherme o mais intelectual dos escritores monásticos do século
XII (cf. p. 9-10).
Daí a questão: o que o livro ora publicado pela
Cultor nos traz? – Traz-nos as duas primeiras obras de Guilherme de
Saint-Thierry e que, à época da publicação, foram muito difundidas (cf. p.
20). Contemplação de Deus foi
escrita por volta de 1121 e Natureza
e dignidade do amor entre 1121 e 1122. Observemos, pois, o conteúdo
de cada um desses tratados e as fontes que o abade cisterciense utilizou para
compô-las.
A Contemplação
de Deus está dividida em duas partes, ainda que contenha uma
“unidade de alma” entre elas. “A primeira (1-8) é mais veemente, revela
possivelmente a intimidade espiritual do autor, deixa transbordar o seu
entusiasmo espiritual: nela se expressa o profundo desejo que habita no coração
do homem: contemplar a Deus. A segunda parte (9-13) possui um caráter mais
didático e doutrinal – o que não a torna menos bela –, em que o autor mostra
como Deus realiza o desejo de sua criatura. Estamos diante de uma obra em que
dialogam uma alma que busca contemplar a Deus e um Deus trinitário que é a
fonte de todo bom desejo e do verdadeiro amor” (p. 21). Para a sua elaboração,
Guilherme se valeu da Sagrada Escritura, da Liturgia Latina (Ofício Divino ou
Liturgia das Horas), a já rica espiritualidade beneditina, a iniciante
espiritualidade cisterciense de Bernardo de Claraval e, por fim, alguns poucos
pontos dos Padres da Igreja (cf. p. 23).
A Natureza
e dignidade do amor, como o próprio título demonstra, “se apresenta como
um clássico da espiritualidade, na medida em que, de um modo pedagógico,
explica com uma linguagem espiritual o tema sempre atual da importância do amor
para a vida humana, sua origem, seu fim, as etapas do seu desenvolvimento. Tudo
isso, com uma sensibilidade teológica e antropológica, que fazem de Guilherme,
o abade de Saint-Thierry, um autor que merece ser conhecido por todas as
gerações de cristãos” (p. 28).
Pergunta-se agora: Qual é o conteúdo desta obra e
em quais fontes o renomado autor se alicerçou? – Responde-nos, uma vez mais, o
Pe. Dantas que “o tema do tratado é a gênese e o crescimento do amor. Nesse
tratado, uma de suas primeiras obras, já se vê delineado um elemento constante
de seu pensamento relativo aos graus do amor: a simples vontade, o amor, a
caridade e a sabedoria. Estes são didaticamente comparados aos períodos da vida
humana: infância, juventude, maturidade e velhice. Essas etapas também
indicarão o progresso na perfeição e na contemplação. O tratado poderia ser
dividido do seguinte modo: I. Prólogo (n. 1-2); II. Nascimento do Amor: vontade
(n. 3-4); III. Juventude: amor (n. 5-11); IV. Maturidade: a caridade, tempo de
progresso (n. 12-25); V. Velhice: sabedoria (n. 26-45) e Epílogo (n. 45)” (p.
24).
As fontes de Guilherme para esta sua rica obra são
a Sagrada Escritura, os Padres da Igreja, a Regra de São Bento e alguns autores
profanos como Cícero, Horácio, Platão etc. (cf. p. 27-28). Importa notar que,
no uso da Bíblia, o monge cisterciense muito se vale do que poderíamos chamar
de defloratio, isto é,
colher “na Escritura Sagrada as palavras que lhe permitem compor o buquê
necessário para expressar o seu próprio pensamento” (p. 27).
E assim como Guilherme de Saint-Thierry conclui o seu Contemplação de Deus, concluamos este nosso modesto artigo: “Nós Te adoramos e Te bendizemos: a Ti a glória nos séculos. Amém!” (p. 57).

Edição Portuguese

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