Escritor português lança livro tocante sobre a perda da mãe
29/01/26
No
livro Mãe, recém-lançado no Brasil, o escritor e jornalista Hugo Gonçalves
realiza corajosa exposição autobiográfica.
Na primeira década de sua vida, aconteceu com o
português Hugo Gonçalves o maior temor de qualquer criança, que é perder a mãe.
Como acontece com tantas pessoas, o luto não foi devidamente elaborado na época
do trauma, e tornou-se uma poderosa força inconsciente a atormentar seus
relacionamentos e lhe causar angústia ao longo da vida.
Até, prestes a completar 40 anos, o escritor,
jornalista e roteirista português resolveu dedicar um livro ao tema, e escrever
tornou-se instrumento de autoanálise, de elaboração tardia do luto e de cura.
Esse é o processo exposto de maneira honesta e corajosa no livro Mãe, recentemente publicado no Brasil
pela Companhia das Letras. A obra foi originalmente lançada em Portugal em 2019
com o título Filho da Mãe.
A obra foi finalista dos prêmios PEN Clube e Fernando Namora.
Em 2016, já consagrado como correspondente de
publicações portuguesas em Nova York, Madri e Rio de Janeiro, assim como
coautor e roteirista das séries televisivas País Irmão e Até
que a Vida nos Separe, da emissora lusitana RTP, Gonçalves recebeu de
sua avó materna, dentro de um saco plástico, o testamento de seu avô, com a
escritura da casa e outros documentos. O que lhe remeteu à tarde em que, aos
nove anos de idade, soube da morte de sua mãe, vítima de um câncer: “Sabes que
a tua mãe estava a sofrer, não sabes? Ela agora já não está a sofrer
mais”.
O conteúdo daquele saco plástico desencadeou uma
busca interior com destino à infância e ao maior pesadelo que uma criança pode
enfrentar, que é a perda da mãe. Obstinado em reconstituir o cheiro, a voz e o
afeto da matriarca, o autor lançou-se também em uma jornada geográfica passando
por Ilha da Madeira, Algarve, Lisboa, Porto, Rio de Janeiro e Nova York,
recolhendo fragmentos como fotos, conversas com o pai, o irmão e a avó e
depoimentos de conhecidos, gravações de voz, o corredor do hospital, o colégio
de padres, uma cicatriz na perna, tudo com o intuito de compor uma imagem total
de sua mãe.
A partir de seu relato pessoal, o autor constitui um panorama universal não só da ausência e do luto, como da inestimável importância da figura materna no decorrer da vida. O autor atinge insights tão profundos que é possível relacionar a perda da mãe a muitos de seus conflitos pessoais na vida adulta. Atinge todos esses objetivos em uma prosa precisa, contida e bela, sem esbarrar no sentimentalismo. É um livro maduro sobre o afeto, as origens, a família e as dores do crescimento, um audacioso acerto de contas com o passado.

Edição Portuguese

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