Simplicidade e espiritualidade
19/12/25
Que bom saber que Deus anda nos
procurando. Será que abrimos-lhe caminhos e sendas?
O seguinte texto foi postado no portal Franciscanos.org.br pelo frei Almir
Ribeiro Guimarães:
Um dos escritores mais profícuos e profundos de
nossos tempos e que reflete inteligente e criticamente sobre o ser gente e ser
cristão é Christian Bobin. Dele é o seguinte pensamento: “Eliminei muitas coisas inúteis de minha vida
e Deus se aproximou para ver o que se passava”. Os que eliminam coisas
supérfluas são aqueles que abrem as portas para a chegada do Senhor. Coisas
inúteis em geral são coisas complicadas. Vamos tentar fazer um breve elogio da
simplicidade.
Simples é aquilo que se opõe a complexo,
sofisticado, complicado, aquilo que é formado de um só elemento, o que nosso
espírito não tem dificuldade de captar e apreender, tanto no campo prático como
no nível das ideias.
André Comte-Sponville, filósofo, assim escreve
sobre o tema: “Ser simples é ser
natural, sem duplicidade, sem cálculo, sem composição (…). Quase se poderia
dizer que simplicidade é esquecimento de si. Nesse sentido a simplicidade é uma
virtude, não o contrário de egoísmo como a generosidade, mas o oposto de narcisismo,
de presunção, da autossuficiência (…) Por isso é fácil compreender os simples,
amá-los, viver com eles”.
Atentemos para o binômio simplicidade e
espiritualidade. Jesus gostava de dizer que seu Pai costumava revelar seus
mistérios aos simples e humildes. Estamos diante de uma visão da simplicidade
como despojamento. Voltemos a Comte-Sponville referindo-se à contemplação
ligada à simplicidade: “É a atitude da
consciência quando ela se limita a considerar a coisa como ela é, sem querer
possuí-la, utilizá-la, julgá-la”. Thomas Merton diz que “a contemplação não é visão, porque ela vê
sem ver e conhece sem compreender”. No campo da espiritualidade,
simplicidade é o movimento de ir para além das palavras, dos conceitos e dos
raciocínios. E agora Simone Weil a nos ajudar: “Quando se ouve Bach ou uma melodia gregoriana, todas as faculdades da
alma se orientam para ou se calam para apreender esta coisa perfeitamente bela,
cada uma à sua maneira. A inteligência entre outras: nada tem a ver com afirmar
ou negar, mas de tudo se alimenta. A fé não deveria ser um adesão desse tipo?
Os mistérios da fé são degradados na medida em que são objeto de afirmação ou
de negação, quando na verdade precisam ser objeto de contemplação”.
Cuidado para não simplificar demais as coisas! Pode
haver sério risco nesse campo. Simples sim, mas não simplório. Defender a
simplicidade sem mais pode significar a recusa de refletir, de ver a realidade
como ela é, deixando de fazer as necessárias distinções. Pode ser que elogiemos
a simplicidade para acobertar nossa preguiça de pesquisar, de buscar, de
discernir. Uma inadequada busca de simplicidade leva a um certo empobrecimento
do mundo. Virtus in medio,
sempre.
O evangelho é anunciado por aqueles que vivem com
simplicidade. “Esta sociedade precisa
descobrir que precisamos voltar a uma vida simples e sóbria. Não basta aumentar
a produção e alcançar um nível superior de vida. Não é suficiente ganhar sempre
mais, comprar cada vez mais coisas, desfrutar de maior bem-estar. Esta
sociedade precisa como nunca do impacto de homens e mulheres que saibam viver
com poucas coisas. Crentes capazes de mostrar que a felicidade não está em
acumular bens. Seguidores de Jesus que nos lembram que não somos ricos quando
possuímos muitas coisas, mas quando sabemos desfrutá-las com simplicidade e
compartilhá-las com generosidade. Os que vivem uma vida simples e uma
solidariedade generosa são os que melhor pregam hoje a conversão de que mais
necessita a nossa sociedade” (Pagola, O caminho aberto por Jesus,
Marcos, p. 133-134).
Christian Bobin deve ter ficado feliz quando Deus
veio saber o que se passava com ele quando simplificava sua vida… Quem sabe
preparava o caminho para a comunhão com o Senhor…

Edição Inglês

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