Bíblia: O amor em Palavra
14/12/25
Antes mesmo que o mundo fosse criado, a
Palavra já existia. Havia entre o Pai e o Filho, um diálogo de amor
Do crente ao ateu e do gentio ao judeu, a leitura
bíblica se dá por diversas veredas que atravessam o pensar e a lógica humana, e
tais caminhos vão de encontro, predominantemente, ao entendimento da
intencionalidade do autor. Muitos dos estudos das Sagradas Escrituras se voltam
às questões hermenêuticas justamente porque o material suscita múltiplas
interpretações e a isso também se devem os inúmeros nichos religiosos dispersos
no mundo. Portanto, refletir acerca da Bíblia é ser possuidor de um material
acadêmico heterogêneo com recepção direta no mundo contemporâneo/moderno, e sua
riqueza é incontestável, seja pelo viés religioso ou exclusivamente literário.
Tamanho bem é, muitas vezes, negligenciado pelo
próprio fiel que faz das Escrituras um fim puramente apologético e ignora o
fato único e basilar da fé cristã no qual afirma que a Palavra se fez carne, ou seja, a
Bíblia não é Palavra de Deus, portanto, a não ser em sentido analógico;
porque, propriamente falando, a Palavra é
a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Filho eterno do Pai, Jesus Cristo. O
próprio documento do Concílio do Vaticano II, intitulado Dei verbum - Dogmática sobre a Divina
Revelação, revela que “o cristianismo é a religião da Palavra de Deus,
não de uma palavra escrita e muda, mas do Verbo encarnado e vivo".
Antes mesmo que o mundo fosse criado, a Palavra já
existia. Havia entre o Pai e o Filho, um diálogo de amor. Foi por pura graça
que Deus, servindo-se de seu Verbo, tudo criou, inclusive a raça humana, para
que assim fosse feita uma comunhão. O ser humano, no entanto, através de seu
livre-arbítrio, apartou-se de Deus, frustrando o plano original que Ele tinha
para todos os seus filhos. Mas tamanha é a misericórdia divina que com o
intuito de resgatar o homem dessa condição, tornou visível, audível e tátil o
Verbo eterno. A verdade, agora, tornou-se palpável.
Instrumento
As páginas sagradas não constituem um fim em si
mesmo, mas são um instrumento para suscitar a virtude da fé,
princípio de todo o organismo espiritual que Deus enxerta em seus filhos
adotivos; são um meio para tornar-nos "participantes da natureza
divina" (2Pd 1, 4) e saciar o ser com a Palavra por que ansiava desde
sempre o inquieto coração humano. É de fé católica que os livros que compõem as
Escrituras são divinamente inspirados e, por isso, têm a Deus mesmo por autor
principal. Isto não significa, porém, que nos tenham sido transmitidos por
simples ditado, ao modo das assim chamadas "psicografias", nem que,
portanto, os autores humanos — também denominados hagiógrafos —
tenham pouca ou nenhuma participação na composição dos textos santos.
Conciliando extremos à primeira vista incompatíveis, a fé católica ensina que,
apesar de ser antes e sobretudo Palavra de Deus, a Bíblia não deixa de ser
também produto da ação de homens reais e concretos, que cooperaram ativa e
efetivamente para que à Igreja estivessem sempre abertos os tesouros das
divinas Letras.
As Escrituras, por conseguinte, não podem ser
consideradas fonte de inspiração somente pelo fato de uma decisão da autoridade
eclesiástica; pelo contrário, é justamente por serem inspiradas e motivo
revelação divina que a Igreja, sob a assistência do Espírito Santo, as acolhe,
venera, medita e proclama. Segundo o livro de Teologia Fundamental do Padre
Paulo Ricardo, “não é a inventos e especulações humanas que se deve
recorrer para alcançar o sentido verdadeiro e genuíno das Escrituras e da
Tradição, nem a critérios e preferências pessoais, mas à voz daquela que,
instituída pelo próprio Senhor Jesus como mãe dos fiéis
e mestra das nações, suporta, nutre e sustenta a fé de cada um de
seus filhos, isto é, à Igreja Católica”.
Sentido
À primazia da Escritura acrescenta-se o poderio da
fé individual, e, portanto, é função do leitor, iluminado pelo Espírito Santo,
a exegese dos textos sagrados. Entretanto, a Igreja orienta sobre o verdadeiro
sentido dos textos bíblicos, prevenindo de qualquer interpretação que discorde
do que por ela é proposto como sendo a reta compreensão da Palavra de Deus.
Fato é que a Bíblia não poderá ser entendida, na profundidade do seu
significado, pelo leitor que se limitar aos aspectos formais literários ou até mesmo
nas questões históricas, haja vista que mesmo sendo inegável o manancial
investigativo e científico por detrás daquelas linhas, só será possível ter a
verdadeira interpretação da mensagem aquele que se deixa ser conduzido pelo
Espírito Santo de Deus.
Ao cristão que muitas vezes, mesmo com todo empenho, sente-se aquém de realizar algumas análises, é necessário ter em mente que o fiel tem na Igreja, a intérprete legítima constituída pelo próprio Cristo como depositária incorruptível das verdades contidas na Palavra. É a ela que se deve recorrer quando a dúvida for maior do que o real entendimento da vontade de Deus.

Edição Inglês

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