Os pais e a dinâmica do testemunho
13/04/26
Os sacrifícios que os pais fazem por seus filhos são um testemunho que
nunca será esquecido, mesmo que negado em um momento de rebeldia
Em um artigo anterior (Desenhos animados perigosos?), escrevi sobre a
importância dos filhos receberem um testemunho adequado dos pais, argumentando
que a força desse testemunho seria maior que as influências recebidas do
ambiente e dos meios de comunicação.
Fui questionado sobre o que seria esse “testemunho
adequado”, que para alguns pareceu um conceito demasiadamente vago. De fato,
existem muitas formas de se testemunhar, com efeitos diferentes dependendo
tanto da pessoa que dá o testemunho quanto daquela que o recebe. Seria
inadequado querer fazer um “manual do testemunho cristão”. Além disso, o
testemunho não pode ser simulado, seguindo um plano para impactar o outro. Tem
que nascer naturalmente, a partir da conduta que brota do íntimo de nosso
coração.
Dito isso, sem desejar querer fazer um esquema, traço
algumas características que, ao longo dos anos, tenho encontrado nas pessoas e
encontros que me parecem ser testemunhos mais impactantes, no bom sentido, e
adequados às pessoas. Insisto que não se trata de um esquema ou de uma
“fórmula” a ser seguida, apenas a constatação de algumas evidências. Como esse
domingo, em particular, é Dia dos Pais, é bom também esclarecer que essa
reflexão vale para pais, mães e todos aqueles que se sentem chamados a dar um
testemunho cristão.
É comum que pais, professores e líderes queiram
demonstrar a sua potência e coerência, mostrar o quanto são bons. É uma
aspiração natural, que pode nascer de um justo desejo de se mostrar correto e
confiável para aqueles que amamos ou de um não tão justo desejo de ser seguido
e obedecido pelos demais.
Mas a primeira característica importante do
testemunho cristão é justamente que retrata a ação de um Outro, não a nossa. É
Deus quem age, ainda que por meio de nós e com a nossa colaboração. Isso faz
toda a diferença. Se nossos pais são muito bons e muito fortes, sentimos a
obrigação moral de sermos como eles. Quando nos percebemos ajudados e somos
bem-sucedidos, essa obrigação moral conta como um grande incentivo. Mas, quando
falhamos – e todos nós falhamos em algum momento – essa obrigação parece um
peso a mais para ser carregado, um fardo e não um apoio. É uma experiência
diferente daquela que transmitimos ao testemunhar que é Deus quem faz, por nós
e em nós. Nesse caso, a alegria não deixa de existir no momento da coerência e
do sucesso, mas existe uma possibilidade de ternura e amparo também na
fraqueza. É uma vivência que suscita muito mais afeto e paz.
Em segundo lugar, esse testemunho refere-se a uma
vida plena de sabor e de sentido. De que vale viver com responsabilidade,
seguindo o que há de mais nobre na natureza humana, fazendo o bem aos demais,
se a vida não tem sabor, é cinzenta e opaca, esmagada pelo peso dos
acontecimentos? Muitas vezes é assim que os filhos veem a seus pais. Podem até
se sentir imensamente gratos a eles por seus sacrifícios, mas não querem viver
como eles.
É particularmente nessa brecha, a da aparente falta
de sentido e sabor na vida e nos ensinamentos dos pais, que se infiltra aquilo
que chamamos de “más influências”. Se a vida dos pais não vale a pena, parece justo
procurar outros atrativos que ajudem a ser alegre, a obter a felicidade pela
qual todo ser humano anseia. Nesse caso, não são os maus exemplos que são
fortes, é o nosso exemplo de beleza que é fraco. E o bem e a verdade não
conseguem se firmar se não estão iluminados pela beleza...
É importante que os jovens recebam testemunhos
tanto de coerência, compromisso com o que é bom e justo, quanto de felicidade,
alegria de viver. Mas o primeiro testemunho é o da felicidade, pois quem é
infeliz dificilmente poderá levar a felicidade a outros. Fique claro que a
felicidade não equivale à satisfação de nossas vontades, lição difícil de ser
aprendida por todos, ainda mais nesses tempos de hoje. Além disso, os
sofrimentos da vida podem embaciar o brilho da felicidade, não seria justo
ocultar essa verdade.
A questão é que, para os cristãos, a felicidade não
se identifica com a simples satisfação das vontades ou ausência de sofrimentos.
Somos felizes porque fazemos a experiência de sermos amados que preenche a
realidade de sentido e a vida de sabor. E é por isso que também somos capazes
de amar. Esse sentido e esse sabor não anulam a dureza da vida, mas nos
permitem conhecer pelo menos uma semente de felicidade que tende a se expandir
por toda a existência. É essa semente, grande ou pequena, depende das condições
e da liberdade humana, que – com a graça de Deus – semeamos nos jovens com o
nosso testemunho.
A coerência também é muito importante nesse
testemunho. Contudo, a coerência que importa não é a do seguimento a regras e
normas sociais, ou do esforço pessoal para chegar ao sucesso. A coerência que
realmente importa é aquela do amor. Os cristãos anunciam o amor de Cristo, é
fundamental que os jovens vejam nos adultos cristãos pessoas que agem segundo
esse amor.
Amar também pode significar corrigir e exortar ao
bem – e novamente falamos de coisas difíceis de serem compreendidas à luz da
mentalidade dominante. Mas aqui não se trata de fazer discursos moralizantes,
mas de ser capaz de sacrifícios e ternura diante do outro, daquele que amamos e
daquele que vemos sofrendo – e daí tirar as consequências morais justas. Jesus
diz que não há mérito em amarmos só os que nos amam (Mt 5, 38-48). Do mesmo
modo, nosso testemunho cristão não parece verossímil se a correção ou o anúncio
dos valores não vem antecedido por provas de amor e ternura.
Os sacrifícios que os pais fazem por seus filhos
são um testemunho que nunca será esquecido, mesmo que negado em um momento de
rebeldia. Para os filhos, a solidariedade que os pais prestam ao que sofre
orienta toda uma vida voltada ao bem. Por outro lado, a intransigência, a norma
proposta sem a devida ternura, a condenação que não aceita reconciliação, até o
bem vivido como formalismo se tornam dúvidas e suspeitas que corroem a mensagem
cristã e a formação humana, moral e espiritual, dos jovens.
Nos preocupamo-nos muito com a formação de nossos
filhos, com as lições que transmitimos a eles, com a coerência moral que
demonstramos. Contudo, nosso único grande desafio é aderir sempre mais a
Cristo, deixarmo-nos determinar pelo Seu amor por nós... E, no devido tempo,
respeitando a liberdade humana, tudo mais nos será acrescentado (cf. Lc 12,
29-34) – inclusive o testemunho que daremos a nossos filhos.

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