A primeira escola da fé é o lar: como
cultivar a espiritualidade dos filhos
Publicado
em 11/10/26
Muito além de regras ou doutrinas, a espiritualidade na infância
floresce nos gestos simples do cotidiano, no encanto diante da criação e no
olhar acolhedor de quem ensina pelo exemplo da vida
Observar
as crianças diante do mundo é contemplar a forma mais pura de poesia. Os
pequenos possuem um olhar curioso, capaz de enxergar beleza onde a correria dos
adultos só vê rotina. Eles têm a capacidade natural de se maravilhar com a
vida. Na sociedade contemporânea, marcada pela pressa e por preocupações
materiais, corre-se o risco de esquecer que educar um filho exige cuidar de
algo além do corpo e do intelecto: é preciso nutrir a alma. A verdadeira
espiritualidade infantil não nasce de discursos abstratos, mas da experiência
afetuosa de se sentir amado e acolhido no mistério da existência.
Muitas
vezes, confunde-se espiritualidade com religião. Embora conectadas, são
dimensões distintas. A espiritualidade é intrínseca a todo ser humano e diz
respeito à busca de sentido, à interioridade, à gratidão e ao amor. Na
infância, ela se manifesta na curiosidade e no ato de brincar. “Na infância, a
espiritualidade é vivenciada de forma muito natural. Ela se manifesta na
curiosidade da criança, no encantamento diante da vida, na capacidade de
admirar a natureza, de brincar, de criar vínculos e de experimentar o amor”,
explica Jaqueline Santana Pinto, integrante da Rede Global de
Religiões pela Criança. Para ela, a criança vive sua espiritualidade quando
se sente respeitada e incentivada a descobrir o mundo com alegria.
Tudo
começa na família! - não é um clichê
A
família é a primeira escola dessa vida interior. Mais do que palavras, o que
marca a infância é o testemunho. A criança aprende a olhar o próximo ao
observar como os pais perdoam e acolhem. Essa construção começa muito cedo,
acompanhando o ser humano desde o ventre materno. “A espiritualidade da criança
é parte central do seu desenvolvimento. Sabemos que para caminhar e falar a
criança precisa ser estimulada; a partir dessa lógica, vê-se a importância dos
pais. Quando os pais inserem a criança nas suas atividades de fé em Deus,
confiança na graça, inseridos na comunidade com gestos de partilha, respeito ao
próximo, cuidado com a natureza, a criança aprende imitando as atitudes dos
pais”, pontua Maria Alves Benevenuto, coordenadora diocesana da Pastoral da
Criança de Umuarama.
Cultivar
a vida interior fortalece o equilíbrio emocional e a autoestima, oferecendo às
crianças ferramentas de esperança e resiliência. Além disso, a espiritualidade
funciona como um potente escudo de proteção. Quando ensinamos ao pequeno que
sua vida tem valor e que seu corpo e sentimentos merecem respeito, fortalecemos
fatores de prevenção contra todas as formas de violência. Essa consciência
desperta nos adultos a responsabilidade ética de cuidar e proteger a infância.
Os pais podem cultivar essa dimensão em atos simples: ao agradecer pelo
alimento, celebrar conquistas, escutar as dúvidas infantis e cultivar a paz no
lar por meio da não violência e do perdão.
O
valor da Casa Comum! A natureza como mãe desde a infåncia
Outro
pilar essencial é a conexão com a “casa comum”. Ensinar as crianças a cuidar
das plantas, dos animais e do meio ambiente é educá-la para a fraternidade
universal. Quando ela percebe que tudo na criação está interligado, desenvolve
a empatia. “A espiritualidade com as crianças pode ser vivida de forma simples,
alegre e cheia de significado. Ela começa no coração, quando a criança aprende
a reconhecer o bem, a agradecer pelas pequenas coisas e a perceber que não está
sozinha. Por meio de gestos de partilha, de ajuda ao próximo e de respeito à
natureza, a criança descobre que existe um amor maior que cuida de tudo e de
todos”, ressalta Maria Inês Monteiro de Freitas, coordenadora nacional da
Pastoral da Criança. Ela lembra: “Espiritualidade é conexão comigo, com o outro
e com o mundo”.
Esse
olhar de encantamento é nutrido pela contemplação das coisas simples. Para Dom
Frei Severino Clasen, arcebispo de Maringá (PR) “a espiritualidade infantil
pode ser despertada através da curiosidade e da imaginação da criança. Quando a
criança observa o céu, as estrelas, os animais, começa a perceber a beleza da
criação em cada detalhe”, reflete o bispo. Dom Severino recorda que a fé cresce
na convivência diária: “A espiritualidade cresce quando a criança se sente
amada e aprende a amar. Pequenos gestos do dia a dia, como pedir desculpas,
dizer obrigado e acolher o outro, são sementes de espiritualidade que florescem
ao longo da vida”.
Resgatar a dimensão espiritual das crianças é um compromisso com o futuro. Não se trata de impor obrigações rígidas, mas de abrir espaço para que a ternura, a gratidão e a fraternidade encontrem solo fértil. Ao garantirmos que cada menino e menina cresça acolhido por um amor generoso, oferecemos a eles a certeza de que a vida é um dom sagrado, feito para ser partilhado com paz e alegria.

Edição Portuguese

Comentários
Postar um comentário